As Artes Liberais na Idade Média – Parte I

As Artes Liberais na Idade Média – Parte I

A consideração sobre o estudo das Artes Liberais na Idade Média precisa ser dividida em duas partes radicalmente distintas, a saber, a situação desse estudo desde o fim do mundo antigo até ao século XII, e depois, dessa época até ao advento do humanismo renascentista no fim do século XIV.

Os estudiosos medievais herdaram dos romanos a sua cultura, bem como as tradições pedagógicas. Os romanos, por sua vez, durante o período helenístico, absorveram e difundiram através do seu Império o legado educacional dos gregos. Sabe-se que Platão no livro VII da República distingue as logikai tecnai das bánausoi tecnai, isto é, as artes racionais próprias dos homens livres, e as artes mecânicas ou servis, próprias dos trabalhadores manuais ou escravos.

Mostra Platão que a aritmética, a geometria, a astronomia e a harmonia são disciplinas propedêuticas à ciência da dialética, que permitirá à alma passar à contemplação da suprema Ideia do Bem. Diz ainda Platão, no Protágoras, que os jovens, quando já se julgam livres do estudo das artes, são compelidos pelos sofistas ao aprendizado do cálculo, da astronomia, da geometria e da música.

Os sofistas, do seu lado, cultivaram com empenho a gramática, a retórica e a arte das discussões. Mas, enquanto Platão formulou e representou ao vivo o ideal pedagógico da filosofia como a meta dos estudos, seu contemporâneo Isócrates atraia para Atenas multidões de alunos, aos quais ensinava os segredos da retórica e da persuasão política. Desse modo, surgiram os dois modelos e paradigmas da formação escolar: de um lado, o ideal platônico que reduz todas as disciplinas literárias e científicas a simples estudos proemiais à filosofia e, do outro lado, o ideal isocrático, de acordo com o qual o importante era dar aos jovens boa formação literária, ensinando-lhes a bem falar, exprimir-se com clareza e a comunicar-se com os ouvintes por meio de palavras adequadas e de belas expressões.

Pois bem, foi esse ideal retórico de Isócrates que vingou entre os romanos, e que Cícero e Quintiliano transmitiram, através de suas obras, aos estudiosos da Idade Média e, mais tarde, aos humanistas do Renascimento italiano. Para Platão, a filosofia
era a sabedoria tomada como alvo último dos estudos, e para Isócrates a meta dos trabalhos escolares era a eloquência valorizada devido ao seu alcance prático, ao seu papel na vida política e, no caso dos romanos, à sua importância para as lides do fórum .

Acresce que, para Isócrates, a filosofia só entraria no curso dos estudos cum grano salis, a título de elemento formativo, mas de modo algum como o objetivo supremo, segundo a concepção de Platão.

Durante o período helenístico, que se iniciou com a conquistada Grécia e do mundo grego pelos romanos, multiplicaram-se as obras dedicadas às várias disciplinas encíclicas que compunham o currículo médio da formação escolar correspondente ao nosso moderno curso secundário. O primeiro autor que procurou, à imitação de obras gregas congêneres, apresentar aos romanos o conteúdo das disciplinas encíclicas foi Varrão nos seus Nove Livros das Disciplinas que compreendiam: a gramática, a retórica, a dialética, a geometria, a aritmética, a astronomia, a música e a arquitetura.

Entre os transmissores da cultura antiga à Idade Média as disciplinas matemáticas eram sempre apresentadas de acordo com as fontes gregas em que se abeberavam aos seus autores, fosse um Terêncio Varrão nos Nove Livros das Disciplinas no século I a.C. , fosse um Boécio, no início do século V de nossa era, nos seus manuais de aritmética, música e geometria.

Quanto às disciplinas literárias, a gramática abrangia tanto o estudo da língua latina como as obras literárias nesse idioma, e a retórica, que trata da arte de bem falar, ligava-se estreitamente à dialética, a arte de pensar corretamente e de discutir com acerto.

Em obras como a de Varrão, ou nos escritos lógicos de Boécio vinham a lógica aristotélica e a estoica esquematicamente compendiadas para uso dos estudantes, enquanto para a retórica passaram a valer as obras elegantes e eloquentes de Cicero.

No tocante à gramática pura, Donato, professor de retórica em Roma na metade do século IV, redigiu duas, sendo a inferior para os principiantes, e a superior para os alunos mais adiantados. Alem disso, concorreram para o enriquecimento dessa disciplina os gramáticos Charisius e Diomedes na segunda metade do século IV, mas principalmente Prisciano que, no fim do século V, redigiu os dezoito livros das suas Institutiones gramaticae, de tal forma que veio a ser, junto com Donato, o autor preferido para os estudos de gramática durante a Idade Média.

No entanto, quem realizou a melhor compilação sobre as artes liberais em obra que se tornou clássica nas escolas medievais foi o africano Martianus Capella, contemporâneo de Santo Agostinho e que escreveu em Cartago, por volta de 420, os Satyricon Libri IX ou as Núpcias de Filologia com Mercúrio.

Dos nove livros em que a obra se divide, nos dois primeiros Marciano descreve de forma imaginosa o casamento do deus Mercúrio com a douta senhorita Filologia. O olímpico patrono da eloquência estava ansioso por convolar núpcias, mas seu pedido de casamento fora sucessivamente recusado por distintas deidades, tal como Sofia, Mântica ou Psique.

Por recomendação de Virtude, vai Mercúrio aconselhar-se com Apolo, que lhe aponta Filologia como excelente partido. Firmada a escolha, Virtude, Apolo e Mercúrio voam para o palácio de Júpiter, a fim de obter o seu consentimento. Convoca-se, então,um concilio dos deuses. Aprova-se o noivado e resolve-se que a noiva deve ser elevada à categoria divina. No término do primeiro Livro, “uma senhora séria e muito ilustre, que se chamava Filosofia” foi incumbida de anunciar os proclamas, enquanto Júpiter se levantava do trono e os deuses debandavam para as suas moradas.

Por Ruy Afonso da Costa Nunes

 

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