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As Artes Liberais na Idade Média – Parte II

As Artes Liberais na Idade Média – Parte II

No segundo Livro, aparece Filologia, satisfeita mas temerosa de tanta honra, a ser preparada para as bodas por sua mãe Frônesis que a enfeita, e a ser estimulada pelas quatro virtudes cardeais e encorajada pelos beijos das três Graças, enquanto as Musas entoavam belos cânticos.

Chega, então, Atanásia, filha de Apoteose, para levar a noiva até ao Céu. Antes, porem, toca-lhe de leve no peito, que apresenta uma grande inchação. Assim, não pode ser, diz Atanásia. Não poderás ser deificada, Filologia, se não te livrares primeiro do que te enche o peito. A noiva comovida entra a vomitar uma porção de volumes, de várias encadernações e de diferentes assuntos.

Em suma, num instante Filologia ficou esbelta, apesar de pálida. Mas, à medida que tanta boa literatura era expelida pela erudita noiva, os livros iam sendo recolhidos por várias mocinhas, das quais, diz Marciano, umas eram Artes, e outras Disciplinas, ajudadas nessa faina pelas musas Urânia e Calíope. Depois disso, a noiva sorve o licor da imortalidade, sobe ao céu e, sob a orientação de Juno, chega à Via Láctea onde se ergue o palácio de Júpiter.

Aí se concentram todos os deuses e seres celestes de menor categoria, assim como as almas dos grandes vultos antigos. No auge da solenidade, levanta-se a mãe da noiva e diz a Júpiter e aos outros deuses que à vista de todos fosse entregue o que o noivo preparara para os esponsais, que se assegurassem os direitos da noiva e se procedesse à leitura das tábuas do dote e da lex Papia Poppaeaque.

Surge, então, Febo com os presentes do noivo, sete fâmulas que são as sete Artes: Gramática, Dialética, Retórica, Geometria, Aritmética, Astronomia e Harmonia.

À medida que Febo apresenta as donzelas, cada uma vai desfiando num discurso o essencial da sua arte. Aliás, os nove Livros das Núpcias de Filologia com Mercúrio se iniciam cada um com uma poesia que contem o tema a ser desenvolvido de seguida em prosa. Trata-se do gênero chantefable que se tornará típico na Idade Média, isto é, a mistura de prosa e verso numa obra.

Marciano Capela descreve o aspecto e as insígnias de cada uma das Artes, de tal forma que suas descrições se tornaram modelos consagrados para os escultores e pintores da Idade Média, ao passo que a sua obra, animada nos dois primeiros livros, mas árida nos sete restantes, se tornou a obra por excelência a respeito das sete artes liberais.

A Gramática (livro III) apresenta-se como uma velha senhora, descendente do rei Osiris, de Mentis, tendo passado grande parte de sua vida na Ática; surge revestida com uma manto romano (penulata).Traz um estojo de marfim com tinta, penas, tabuinhas e férula, sendo esta para castigar os alunos indóceis. Alem disso, trazia um escalpelopara intervenções cirúrgicas na língua e nos dentes, a fim de cortar os vícios da linguagem e, ainda, uma lima dividida por traços doira-dos em oito partes, símbolos das oito divisões do discurso.

A dialética (Livro IV), de rosto fino e olhos vivos, traz os cabe-los enrolados a caírem por degraus até aos ombros. Tem na mão esquerda uma serpente meio oculta pelo vestido e na direita uma tabuinha de cera e um anzol. As inscrições gravadas nessa tabuinha denunciam as insidias viperinas ocultas em sua mão esquerda.

A Retórica (Livro V) apresenta-se como a virgem mais imponente, de grande estatura, esbelta e linda. Armada como um guerreiro, marcha ao som de trombetas. Em seu peito refulgem pedras preciosas e no seu séquito nota-se a presença de Ésquines, Isócrates e Lisias, e de muitos outros ilustres representantes da eloquência e das letras.

A Geometria (Livro VI) comparece como uma formosa mulher trajada com belíssimo vestido em que estão desenhadas as formas, os movimentos dos astros e a sombra da terra no céu. Geometria tem na mão direita um compasso (radius) e na esquerda, uma esfera.

Aritmética (Livro VII) surge a fazer um discurso em que se enaltece como a fonte primacial de todas as coisas, singulos vos universos que recenseam ex meis ramalibus germinad. Sua cabeça resplandece de modo impressionante. Da fronte escapa alvinitente raio, do qual logo sai um segundo, mais um terceiro, um quarto, até que se multiplicam de modo inumerável para retornarem, enfim, à unidade inicial.Seu vestido variegado e pluriforme devido à representação de obras de toda a natureza, estava recoberto por uma capa. Seus dedos mo-viam-se incessantemente numa agitação semelhante à dos vermes (vermiculati).

O aparecimento de Astronomia (Livro VIII) perante o divino Concilio foi dos mais esplendorosos. Ela surgiu inscrita num globo de fogo com uma coroa de estrelas sobre os cabelos cintilantes e com duas grandes asas douradas, com penas de cristal. Numa das mãos trazia um brilhante instrumento de um côvado de altura, e na outra um livro em que se divisam os caminhos dos deuses e os cursos dos astros.

Finalmente (Livro I X ) , desponta a sublime Harmonia entre Feboe Palas Atena, e cuja sonora cabeça era coberta for folhas de ouro coruscante. Seu vestido de lâminas retinia ao menor movimento, de tal modo que ela era melodiosa da cabeça aos pés. Entrou em cena com um cortejo das deusas Peta, Volúpia e as Graças, e de poetas e músicos como Orfeu, Anfião e Arião, enquanto à esquerda e à direita marchavam muitos heróis e sábios de longa cabeleira. Com a mão direita Harmonia extraia admiráveis acentos das cordas sonoras de um grande escudo de ouro, enquanto da esquerda pendiam pequenas efígies doiradas como símbolos dos prazeres teatrais.

Essas, as sete figuras de mulheres esplendorosas com que a imaginação de Marciano Capela povoou a mente dos estudiosos na Idade Média e, através da influência exercida sobre os artistas, as fachadas das catedrais.

 

Ruy Afonso da Costa Nunes

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