As Artes Liberais na Idade Média – Parte III

As Artes Liberais na Idade Média – Parte III

Parece-me conveniente destacar alguns aspectos interessantes dessa obra de Marciano Capela.

Primeiramente, atente-se para o seu caráter geral: o conúbio de Mercúrio com Filologia. Como diz Plotino, quando os sábios antigos representavam simbolicamente a Hermes com um órgão gerador sempre em atividade, eles queriam dizer que Hermes — ou Mercúrio — gerador das coisas sensíveis, representa o noêtos lógos, a razão inteligível. Daí para Marciano Capela a conveniência da união de Mercúrio — lógos — com Filologia — filein lógos — o amor à razão.

Em segundo lugar, convêm assinalar que Mercúrio é um deus bem falante, patrono da eloquência. Nada mais indicado que a sua união com Filologia, paradigma do pensamento claro e da linguagem expressiva, a macilenta perscrutadora do cosmos e a estudiosa afeita às vigílias sobre os livros, conforme o elogio que lhe teceu Juno.

Ao lado dessa aclamada e venturosa Filologia, a figura de Filosofia encolhe-se e apaga-se, claro sinal da decadência dos estudos filosóficos no século V, no Império Romano moribundo. Filologia representa o triunfo e o enaltecimento do ideal retórico. Com as suas sete serviçais, que são as Artes Liberais, ela oferece aos homens a suma dos conhecimentos.

Desse modo, Filologia representava para o orador o supremo ideal da cultura, tal como este fora concebido por Cícero. Outro ponto interessante na obra de Marciano Capela acha-se no segundo livro, quando Filologia vomita uma biblioteca. Diz, então o autor que os livros iam sendo recolhidos por várias donzelas, quorum Artes aliae, alterae dictae sunt Disciplinae. Ora, como o próprio Marciano frisa, algumas dessas jovens eram Artes e as outras, Disciplinas. Qual seria a razão dessa distinção? Cícero, por exemplo, usava indiferentemente uma expressão por outra, ao referir-se às artes, artes liberales, ingenuae, bonae artes, bonarum rerum disciplinae, etc.

No século I X , Remi de Auxerre, ao comentar esse passo das Núpcias de Filologia com Mercúrio, explica que a diferença entre arte e disciplina reside no seguinte: há disciplina, quando se aprende, cum discitur, earte, quando se chega ao perfeito hábito da alma, isto é, à inteligência. Santo Isidoro de Sevilha, no começo do século VII, já chamara a atenção para tal distinção na sua obra Etymologiae Sive Origines ao observar no início do Livro I que Platão e Aristóteles haviam estabelecido tal diferença, ao reconhecerem que a arte se refere a coisas que são de um modo, mas podem ser de outro, enquanto a disciplina trata de coisas que não podem ser de outro modo.

Assim, quando se afirma algo de verdadeiro após várias discussões, trata-se de disciplina, e quando se trata de algo que é apenas objeto de opinião ou só algo verossímil, então temos a arte.

Aludimos a este trecho do Santo Isidoro, porque as suas Etymologiae constituíam obra de consulta obrigatória nas escolas, a enciclopédia que resolvia as dúvidas dos estudiosos. Na verdade, porem, essa distinção entre arte e disciplina ele a copiou de Cassiodoro que a examina em dois lanços das suas Institutiones, a saber, ao tratar da Retórica no Liber II e da Dialética no mesmo Liber II.

Releva, também, anotar a declaração de Marciano Capela de que a dialética foi divulgada pela primeira vez em língua latina graças ao trabalho de Marco Terêncio Varrão, de quem se reconhece devedor. Alem de tudo isso, vale a pena destacar os louvores que Aritmética teceu ao número sete, ao observar que é o símbolo de Minerva, que sete são os círculos e os planetas, as misturas dos elementos, os orifícios da cabeça que servem de órgão dos sentidos, os membros vitais: língua, coração, pulmão, o baço, o fígado e os dois rins.

Facilmente se infere, dado o simbolismo desse número, a razão de serem sete as artes liberais. Por último, lembremos apenas que a primeira parte do Livro VI, Geometria, contem um tratado de geografia e que, no começo do último Livro, Marciano Capela explica a exclusão, em sua obra, da Arquitetura e da Medicina, as duas artes que apareciam na lista das Nove Disciplinas de Varrão. Trata-se, diz o retórico africano, de duas artes muito terrenas, que nada tinham a fazer na amplidão do ceu, perante o senado celeste reunido na Via Láctea.

A obra de Varrão não chegou até nós. A de Marciano Capela, embora não seja quase lida, foi a base do ensino das escolas medievais,com o programa das artes sermocinais do trivium: gramática, retórica e dialética, e das artes reais do quadrivium: aritmética, geometria, astronomia e música. Nesses dois grupos das sete artes estava o fundamento da clássica divisão das matérias do ensino em letras e ciências.

Por Ruy Afonso da Costa Nunes

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