Concepção Antiga e Medieval das Artes Liberais – Parte I

Concepção Antiga e Medieval das Artes Liberais – Parte I

No ano de 594, no início do período medieval, Gregório de Tours, ao terminar a sua História dos Francos, dirige-se aos seus futuros sucessores na cátedra episcopal de Tours, conjurando-os a que não destruam nem alterem as suas obras, ainda que lhes pareçam escritas em estilo pesado, impressão que seria de esperar de qualquer bispo bem exercitado nas sete artes liberais, e, que nelas se tivesse iniciado sob a orientação do “nosso Marciano”.

Essas palavras de Gregório de Tours a respeito da formação dos eclesiásticos são bem esclarecedoras a respeito do papel nela desempenhado pelas Núpcias de Filologia com Mercúrio do “Martianus noster”. Qual era, entretanto, o significado e o alcance escolar dessa obra, ou melhor, das próprias sete artes liberais, de acordo com a mundividência cristã que plasmou a Idade Média?

Examinemos, primeiramente, a posição dos estudos liberais no mundo antigo. Platão, já o vimos no parágrafo anterior, distinguiu entre as logikai teknai e as banausoi teknai, isto é, as artes racionais próprias de um homem livre, e as artes mecânicas, impróprias para um cidadão. Aristóteles, no Livro VIII da Política, observa, ao tratar da educação dos jovens, que são mecânicas e envilecedoras todas as artes que incapacitam o corpo, a alma ou a mente dos homens livres para a prática e as atividades da virtude.

Entram na mesma categoria das banausoiteknai todos os trabalhos assalariados, uma vez que impedem a mente de desfrutar do lazer, e a degradam. Essas considerações, como diz o Filósofo, obedecem ao princípio estabelecido sobre a distinção entre os ofícios ou serviços eleutheroi ou aneleutheroi, liberais e iliberais ou mecânicos.

Esse princípio, por sua vez, prendia-se à crença antiga de que os escravos não passam de instrumentos a serviço dos homens livres, e de que há homens que nascem para a escravidão ou são naturalmente escravos, se, desde o nascimento, são dotados apenas de força física, mas não são dotados de inteligência ou se mostram incapazes de se dirigirem por ela.

Debalde se fizera ouvir alguma voz contrária a essa crença que servia de base à organização social do mundo clássico. O sofista Antifonte, por exemplo, declarava que os gregos respeitavam e veneravam quem era de origem nobre, mas não respeitavam nem honravam quem fosse de nascimento obscuro. E nisso, exclamava, comportamo-nos uns para com os outros como bárbaros, porque, por natureza, todos somos absolutamente iguais, quer gregos quer bárbaros.

Cícero, entre os romanos, admitia serenamente que o escravo não passa de um instrumento falante, ao mesmo tempo que distinguia as artes liberales ou ingenuae e honestae das outras artes sordidae ouinhonestae.

Quem, porem, entre os romanos, definiu melhor o significado das artes liberais foi Sêneca. Na famosa Epístola 88, o Cordovês explica que a gramática, a geometria, a música, a aritmética e a astronomia são estudos liberais, porque são dignos de um homem livre.

As artes liberais, acrescenta, não levam à virtude mas preparam o caminho para ela; não a ensinam, mas dispõem a alma para a receber. Sêneca declara concordar com Posidônio quanto à classificação das artes em quatro espécies: vulgares ou sórdidas, recreativas, pueris e liberais.

As primeiras são os ofícios manuais exercidos pelos trabalhadores; as segundas (ludicrae) têm por objetivo o prazer dos olhos e do ouvido; as artes pueris são as que os romanos chamam de liberais, enquanto as liberais propriamente ditas são as que têm por objetivo a virtude.

Ora,só uma ciência, a do bem e do mal, dá à alma a perfeição e é inteiramente liberal, isto é, livre; e tal ciência é apenas a filosofia. Na Epístola 90, entretanto, Sêneca cita outra vez as opiniões de Posidônio, afirmando concordar em muitas coisas com ele, mas não em que a filosofia tenha gerado as artes que se usam correntemente na vida, pois isso equivaleria a uma excessiva concessão às artes manuais.

De acordo com Posidônio, os sábios teriam inventado a arquitetura, as ferramentas, os metais, a tecelagem, a agricultura, a arte do padeiro, assim como a de construir navios, e a da pilotagem. Isso, porem, é inadmissível, diz Sêneca. Sem dúvida, foi a razão que deu origem a todas as artes, mas no caso das artes sórdidas não se trata de obra da razão superior, recta ratio, mas apenas de descobertas do homem, e não do sábio.

Todas essas coisas, assevera Sêneca com ênfase, foram inventadas pelos mais vis escravos, vilissimorum mancipiorum, enquanto a sabedoria se assenta bem mais alto, não ensina as mãos, mas só é mestra das almas.

Por isso, se os sábios estão afastados das baixas ocupações manuais, isso não ocorre, como pensa Posidônio, devido a uma separação entre os sábios e as artes que criaram para utilidade da vida. Entre o sábio e os ofícios manuais, continua o filósofo, o que existe é completa incompatibilidade, ad illas omnino non venit.

Como se pode facilmente comprovar, nem a concepção escravagista da sociedade nem o sobranceiro desprezo das artes mecânicas se compadecia com o Cristianismo.

É preciso, entretanto, não olvidar que a Idade Média herdou a cultura retórica dos Romanos, e que o instituto da escravidão permaneceu como situação social que a própria Igreja encarava como um fato inevitável, embora não aprovasse a sua justificação.

 

Ruy Afonso da Costa Nunes

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