Concepção Antiga e Medieval das Artes Liberais – Parte II

Concepção Antiga e Medieval das Artes Liberais – Parte II

Por outro lado, quando Santo Agostinho, no primeiro quartel do século V, se refere no De Doctrina Christiana às artes mecânicas, não as trata com o tom de superioridade dos aristocratas antigos. Ao contrário; observa que durante a vida o estudioso deve tomar um conhecimento ligeiro e superficial dessas artes, não para as praticar, mas para poder apreciá-las e para poder entender o que diz a Sagrada Escritura ao recorrer a elas em expressões figuradas, a não ser, esclarece ainda o santo doutor, que o dever nos obrigue a empregá-las.

Além disso, é preciso frisar que os mestres cristãos procuraram despojar o termo liberal da sua conotação social. Assim, Cassiodoro, no prefácio do Livro II das suas Institutiones explica a origem da expressão liberal, dizendo que a palavra liber procede de “libro” (ablativo de liber) que significa a casca da árvore, destacada e libertada do tronco, e sobre a qual, antes da descoberta do papel, os antigos redigiam os seus versos.

Séculos mais tarde, na duodécima centúria, João de Salisbury declarava, por sua vez, no Metalogicus que as artes foram chamadas de liberais pelos antigos, tanto porque eles cuidavam de nelas instruir os próprios filhos — e em latim, liber, liberi significa filho — como, tambem, porque o seu objetivo é proporcionar ao homem a libertação dos cuidados que lhe impediriam a consagração à sabedoria.

Ademais, elas nos livram muitas vezes das necessidades, até mesmo materiais, de tal modo que a mente dispõe, ainda, de maior liberdade para poder aplicar-se à filosofia.Todavia, durante a Idade Média, sobre serem as artes liberais consideradas como meio de que dispõe os homens para desbastara ignorância, foram elas tomadas como partes da filosofia e vias de acesso à sabedoria superior da Sagrada Escritura.

Essa função ancilar das sete artes quanto aos Livros Sagrados foi determinada primeiramente, no início da era cristã, pelo sábio judeu Filão de Alexandria. Filão colocou-se como pensador e crente diante do problema das relações da filosofia com a revelação das Escrituras, e concluiu que os estudos elementares das artes liberais são como a escrava Agar a serviço de Sara, isto é, da virtude pregada pelos Santos Livros, e com a qual se deve casar legitimamente o intelecto representado por Abraão.

Essa concepção filoniana, que faz da filosofia doulê sophias, a escrava da sabedoria, transmitiu-se na escola cristã de Alexandria através da Idade Média. Orígenes, por exemplo, na sua curta mas incisiva Carta a Gregório Taumaturgo, espera que este tome da filosofia grega tudo o que possa servir de ensino encíclico ou propedêutico à doutrina cristã. E assim, concluiu,” o que os filósofos dizem da geometria e da música, da gramática, da retórica e da astronomia, chamando-as de auxiliares da filosofia, nós a aplicaremos à própria filosofia em relação ao Cristianismo”.

Essa ideia, prossegue, ainda, Orígenes, é sugerida por uma passagem do Êxodo, na qual o próprio Deus ordena que os judeus, com os despojos dos egípcios — vasos de prata e de ouro, vestimentas — fabriquem os objetos necessários ao culto divino.Esse tema dos “despojos dos egípcios” será tomado ao pé da letra durante a Idade Média, e a começar, em grande estilo, por Santo Agostinho, desde o fim do mundo antigo.

No De Doctrina Christiana, Santo Agostinho traça o programa de estudos para o jovem estudioso cristão. Especialmente no Livro II, o santo doutor insiste na ideia de que o estudo proveitoso da Sagrada Escritura requer o conhecimento das artes liberais, de línguas estrangeiras como o grego e o hebraico, da história, e até mesmo das artes mecânicas. Tudo é como o ouro, a prata e as vestimentas possuídas pelos pagãos. Mas, quando o cristão se afasta sinceramente da sua sociedade infeliz, deve arrebater-lhe esses bens, o ouro e a prata, para o uso justo da pregação do Evangelho, assim como deve converter em uso cristão a sua vestimenta, isto é, suas instituições puramente humanas, mas proveitosas à sociedade e de que não podemos carecer na vida presente.

Nessa antiga perspectiva escolar que remonta a Filão de Alexandria, Santo Agostinho orientou definitivamente o espírito da escola medieval, especialmente até ao Renascimento do século X I I , quando tal concepção começou a entrar em colapso, devido ao aumento do saber e à transformação da mentalidade que se processou conjuntamente com as grandes mudanças sociais daquela época.

 

Ruy Afonso da Costa Nunes

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