O que é Educação Liberal? (Parte II)

O que é Educação Liberal? (Parte II)

Por Leo Strauss

E aqui eu menciono mais uma dificuldade. “A educação liberal é educação em cultura.” Que cultura? Nossa resposta é: cultura no sentido da tradição ocidental. Mas a cultura ocidental é apenas uma entre muitas. Ao nos limitarmos à ocidental, não condenamos a educação liberal a um tipo de paroquialismo? E o paroquialismo não é incompatível com o liberalismo, a generosidade, a mente aberta da educação liberal?

Nossa ideia de educação liberal não parece se encaixar numa época consciente do fato de que não existe a cultura da mente humana, mas uma variedade de culturas. Obviamente, “cultura”, se suscetível a ser usada no plural, não é o mesmo que “culture”,
que é singulare tantum, só podendo ser usada no singular. A “cultura” já não é mais absoluta, ela se tornou relativa. Não é fácil dizer o que significa a cultura suscetível a ser usada no plural.

Como consequência dessa obscuridade, as pessoas sugerem, explícita ou implicitamente, que a “cultura” é qualquer padrão de conduta comum a qualquer grupo humano. Assim, não hesitamos em falar de cultura de subúrbios, cultura das gangues
juvenis, delinquentes ou não. Em outras palavras, todo ser humano fora do hospício é um ser humano culto, pois ele participa de uma cultura. Nas fronteiras da pesquisa surge a questão sobre se há ou não culturas entre os membros de um hospício. Se contrastarmos o uso atual de “cultura” com seu significado original, é como se alguém
dissesse que o cultivo de um jardim pode consistir no jardim sendo sujado por latas vazias, garrafas de uísque e papeis amassados jogados pelo jardim de forma aleatória.

Tendo chegado a esse ponto, percebemos que perdemos nosso caminho de alguma forma. Vamos então começar de novo, levantando a seguinte questão: o que a educação pode significar aqui e agora?

A educação liberal é a alfabetização de certo tipo: algum tipo de educação em letras e através das letras. Não há necessidade de justificar a alfabetização – todos os eleitores sabem que a democracia moderna mantém-se ou cai pela alfabetização.

Para entender isso, precisamos refletir sobre a democracia moderna. O que é a democracia moderna? Antes dizia-se que a democracia é o regime que se mantém ou entra em colapso em função da virtude: uma democracia é um regime no qual todos, ou a maioria dos adultos, são homens de virtude. Como a virtude parece exigir conhecimento, é um regime no qual todos, ou a maioria dos adultos, são virtuosos e sábios, ou a sociedade na qual todos, ou a maioria dos adultos, desenvolveram sua razão a um nível alto – ou a sociedade racional.

A democracia deveria ser uma aristocracia que se ampliou para uma aristocracia universal. Antes do surgimento da democracia moderna, havia dúvidas sobre se a democracia entendida dessa forma era possível. Como colocou uma das mentes mais brilhantes entre os teóricos da democracia: “Se houvesse um povo composto por deuses, ele seria governado de forma democrática. Um governo de tal perfeição não é para seres humanos.” Essa opinião discreta hoje se tornou um alto-falante de alta potência. Existe
toda uma ciência – a ciência que eu, entre milhares, professo ensinar, a ciência política – cujo tema é o contraste entre a concepção original de democracia, ou o que se pode chamar de ideal de democracia, e a democracia como ela é.

Segundo um pensamento extremo, predominante na profissão, o ideal de democracia foi uma completa ilusão, e a única coisa que importa é o comportamento das democracias e o comportamento dos homens em democracias. A democracia moderna, muito longe de ser uma aristocracia universal, seria o domínio das massas, se não fosse pelo fato de que a massa não pode dominar, mas é dominada pelas elites (por exemplo, grupos de homens que, por qualquer razão, estão no topo ou contam com uma boa chance de chegar ao topo). Uma das virtudes mais importantes exigidas para o funcionamento
sem trancos da democracia, no que se refere às massas, é a apatia eleitoral, ou a falta de espírito público. Certamente não o “sal da terra”, mas o sal da democracia moderna são os cidadãos que não leem nada, exceto a página de esportes e os quadrinhos.

A democracia é, portanto, realmente, não o domínio das massas, mas a cultura de massas.

Uma cultura de massa é uma cultura que pode ser apropriada pela capacidade média sem qualquer esforço intelectual ou moral, a um preço monetário muito baixo. Mas até mesmo uma cultura de massa, e precisamente uma cultura de massa, exige uma oferta constante do que se chama de novas ideias, que são os produtos do que se chama
de mentes criativas: até mesmo músicas de comerciais perdem seu apelo se não variarem de tempos em tempos. Mas a democracia, mesmo se só for considerada a concha que protege a cultura de massa, exige, no longo prazo, qualidades de um tipo totalmente diferente: qualidades de dedicação, concentração, amplitude e profundidade.

Assim, entendemos mais facilmente o que significa a educação liberal aqui e agora. A educação liberal é o antídoto para a cultura de massa, para os efeitos corrosivos da cultura de massa, para sua tendência inerente de produzir nada, a não ser “especialistas sem espírito ou visão e apreciadores do prazer sem coração”. A educação liberal é
a escada pela qual tentamos subir da democracia das massas à democracia em seu sentido original.

A educação liberal é o esforço necessário para fundar uma aristocracia dentro da sociedade de democracia de massa. A educação liberal lembra aos membros de uma democracia de massa que tenham ouvidos para ouvir sobre a grandiosidade humana.

 

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