O que é Educação Liberal? (Parte III)

O que é Educação Liberal? (Parte III)

Por Leo Strauss

Algumas pessoas podem afirmar que essa ideia de educação liberal é meramente política, que assume dogmaticamente que a democracia moderna é boa. Não podemos virar as costas para a sociedade moderna? Não podemos voltar à natureza, à vida em tribos não alfabetizadas? Não estamos esmagados, nauseados, degradados pelo material impresso massivo, cemitério de tantas florestas belas e majestosas? Não é suficiente dizer que isso é mero romantismo, que hoje não podemos voltar à natureza: as próximas gerações, depois de um cataclismo forjado pelo homem, não podem se sentir atraídas por viver em tribos não alfabetizadas? Nossos pensamentos sobre guerras termonucleares não serão afetados por essas possibilidades?

Certamente os horrores da cultura de massa (que inclui passeios guiados pela natureza intacta) tornam inteligível o anseio pela volta à natureza. Uma sociedade analfabeta, no melhor dos casos, é uma sociedade governada por antigos costumes ancestrais que derivam dos fundadores originais, deuses, filhos de deuses ou pupilos de deuses. Como não há letras numa sociedade assim, os herdeiros não podem estar em contato direto com os fundadores originais; eles não sabem se os pais ou avós desviaram-se do que os fundadores queriam dizer originalmente, se transformaram a mensagem divina com adições ou subtrações humanas. Assim, uma sociedade não alfabetizada não consegue agir de forma consistente sobre seu princípio de que o melhor é o mais antigo.

Apenas letras que vieram dos fundadores podem permitir que os fundadores falem

diretamente aos últimos herdeiros. É contraditório querer retornar à não alfabetização. Somos obrigados a viver com livros. Mas a vida é curta demais para viver com quaisquer livros que não sejam os melhores. Nesse sentido, fazemos bem em tomar como nosso modelo aquele entre as maiores mentes que, por causa do seu senso comum, é o mediador

entre nós e as grandes mentes. Sócrates nunca escreveu um livro, mas os lia. Permitam-me citar uma frase de Sócrates que diz quase tudo que há para ser dito sobre o nosso tema, com a nobre simplicidade e a tranquila grandiosidade dos antigos: “Assim como os outros se agradam com um bom cavalo, cachorro ou pássaro, eu me agrado ainda mais com bons amigos… E os tesouros dos homens sábios de antigamente, que eles deixaram por escrito em livros, eu desvendo e percorro com meus amigos. Se vemos algo bom, selecionamos e consideramos um ótimo ganho se, dessa forma, nos tornamos úteis um para o outro.”

O homem que faz esse discurso acrescenta um comentário: “Quando ouvi isso, me pareceu que Sócrates era abençoado e que ele liderava os homens que os escutavam em direção a um perfeito cavalheirismo.” Esse relato é falho, pois não nos diz nada sobre o que Sócrates fazia em relação àquelas passagens nos livros dos homens sábios antigos que ele não sabia se eram boas. Em outro relato, aprendemos que Eurípedes deu a Sócrates

os escritos de Heráclito, e então pediu a opinião dele. Sócrates disse: “O que eu entendi é grandioso e nobre; acredito que o mesmo se aplique ao que eu não entendi; mas certamente é necessária uma ferramenta para entender esses escritos.”

Educação para um cavalheirismo perfeito, para a excelência humana, a educação liberal consiste em lembrar a pessoa da grandiosidade humana. De que formas a educação liberal nos lembra a grandiosidade humana? Não podemos ter pensamento mais elevado sobre o que a educação liberal significa. Ouvimos falar da sugestão de Platão de que a educação é o sentido mais alto na filosofia.

A filosofia é a busca por sabedoria ou a busca por conhecimento das coisas mais importantes, mais altas, mais abrangentes; esse conhecimento, como ele sugeriu, é a virtude e a felicidade. Mas a sabedoria é inacessível ao homem e, portanto, a virtude e a felicidade sempre serão imperfeitas.

Apesar disso, o filósofo – que, como tal, não é simplesmente sábio – é declarado como o único rei verdadeiro. Declara-se que ele tem todas as excelências das quais a mente humana é capaz, no mais alto nível. A partir disso, concluímos que não podemos ser filósofos – não podemos adquirir a forma mais alta de educação. Não devemos nos deixar enganar pelo fato de que encontramos muitas pessoas que se dizem filósofos. Elas empregam uma expressão vaga, talvez por conveniência administrativa. Muitas vezes, querem dizer que são membros de departamentos de filosofia. É tão absurdo esperar que membros de departamentos de filosofia sejam filósofos quanto é absurdo esperar que membros de departamentos de arte sejam artistas. Podemos não ser filósofos, mas podemos amar a filosofia, podemos tentar filosofar.

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