Que é Educação Liberal? (Parte VI)

Que é Educação Liberal? (Parte VI)

Por Leo Strauss

Essa filosofia consiste primariamente e, de certa forma, principalmente em escutar a conversa entre os grandes filósofos ou, de forma mais geral e cautelosa, entre as maiores mentes, portanto estudar as grandes obras.

As maiores mentes a quem devemos ouvir não são, de forma alguma, exclusivamente as grandes mentes do Ocidente. É simplesmente uma contingência infeliz que nos impede de ouvir as maiores mentes da Índia e da China: não entendemos sua linguagem, e não podemos

aprender todos os idiomas. De novo, a educação liberal consiste em escutar a conversa entre

as maiores mentes. Mas aqui somos confrontados com a grande dificuldade de que essa conversa não ocorre sem nossa ajuda – o fato de que devemos fazer essa conversa acontecer. As maiores mentes fazem monólogos. Devemos transformar seus monólogos num diálogo, seus “lado a lado” num “juntos”. As maiores mentes produzem monólogos até quando escrevem diálogos.

 

Quando observamos os diálogos platônicos, vemos que nunca existe um diálogo entre mentes da ordem mais alta: todos os diálogos de Platão são diálogos entre um homem superior e um homem inferior a ele. Platão aparentemente achava que não era possível escrever um diálogo entre dois homens da ordem mais alta. Devemos, então, fazer algo que as maiores mentes não puderam fazer. Vamos encarar essa dificuldade – uma dificuldade tão grande que parece condenar a educação liberal como um absurdo. Como as maiores mentes se contradizem umas às outras em relação aos temas mais importantes, nos obrigam a julgar seus monólogos;

não podemos confiar no que nenhuma delas diz. Por outro lado, não podemos deixar de notar que não somos competentes para sermos juízes. Esse estado das coisas é disfarçado por uma série de ilusões superficiais.

De alguma forma acreditamos que nosso ponto de vista é superior, melhor que o das maiores

mentes – ou porque o nosso ponto de vista é o do nosso tempo, e nosso tempo, sendo mais recente que o das maiores mentes, é presumido como superior; ou porque acreditamos que cada uma das maiores mentes estava certa a partir de seu ponto de vista, mas não absolutamente certa. Nós sabemos que não pode haver uma visão simplesmente

verdadeira, mas apenas uma visão formal verdadeira; essa visão formal consiste na ideia de

que toda visão abrangente é relativa a uma perspectiva específica, ou que todas as visões abrangentes são mutuamente exclusivas e nada pode ser simplesmente verdadeiro.

As ilusões que nos enganam quanto à nossa situação verdadeira correspondem a isso: que nós somos, ou podemos ser, mais sábios do que os mais sábios homens do passado. Assim, somos induzidos a interpretar o papel não de ouvintes atentos e dóceis, mas de agentes e domadores de leões. Mesmo assim, devemos encarar nossa impressionante situação, criada pela necessidade de tentarmos ser ouvintes mais atentos e dóceis, quer dizer, juízes, ainda que não

competentes para sê-lo. Para mim, a causa dessa situação é que perdemos todas as tradições

simplesmente autorizadas nas quais poderíamos confiar, o nomos que nos deu orientação, porque nossos professores imediatos e professores dos professores acreditavam na possibilidade de uma sociedade simplesmente racional. Cada um de nós aqui se vê inclinado a encontrar sua própria orientação por esforço próprio, apesar das falhas.

 

Não temos conforto a não ser por aquele inerente a essa atividade. A filosofia, como aprendemos, deve estar alerta contra o desejo de ser edificante – a filosofia só pode ser intrinsecamente edificante. Não podemos exercer nosso conhecimento sem, de tempos em tempos, entender algo de importância; e esse ato de entendimento pode ser acompanhado pela conscientização do nosso entendimento, pelo entendimento do entendimento, por noesis noeseos. É uma experiência tão alta, tão pura, tão nobre que Aristóteles a atribuía ao seu Deus.

Essa experiência é inteiramente independente de se o que entendemos primariamente

é agradável ou desagradável, bonito ou feio.

Isso nos leva a perceber que todos os males são, de certa forma, necessários para o entendimento. Isso nos permite aceitar todos os males que nos ocorrem e que podem nos ferir no espírito de bons cidadãos da cidade de Deus. Ao tomar consciência da dignidade da mente, percebemos a verdadeira base da dignidade do homem e, com isso, a bondade do mundo, que é o lar do homem porque é lar da mente humana.

A educação liberal, que consiste na permanente troca com as maiores mentes, é um treinamento na forma mais alta de modéstia, para não dizer de humildade. É, ao mesmo tempo, um treinamento de ousadia: ela exige de nós uma ruptura total com o silêncio, a pressa, o descuido, o barato da feira de vaidades dos intelectuais e dos seus inimigos.

 

Exige de nós a ousadia implícita na determinação de considerar as visões aceitas apenas como

opiniões, ou considerar as opiniões médias como extremas, pois têm no mínimo a mesma probabilidade de estarem erradas que as opiniões mais estranhas ou menos populares.

A educação liberal é a libertação da vulgaridade. Os gregos tinham uma bela palavra para “vulgaridade”; eles diziam apeirokalia, falta de experiência em coisas bonitas.

 

A educação liberal nos oferece experiência em coisas bonitas.

Deixe uma resposta

Fechar Menu
×
×

Carrinho