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O Estudante e a Universidade – Parte I

O Estudante e a Universidade – Parte I

Allan Bloom
Tradução: João Álvez dos Santos

Qual é a imagem que uma universidade de primeira ordem apresenta hoje a um adolescente que, pela primeira vez na vida, deixa a família para se lançar à aventura da educação liberal* na universidade?

Dispõe de quatro anos de liberdade para descobrir a si mesmo: o lapso de tempo que separa o baldio intelectual que ficou para trás da inevitavelmente monótona formação profissional que o espera, depois da formatura.** Durante esse breve período, tem de aprender que há um vasto universo para lá do pequeno mundo que ele conhece, de sentir o seu estímulo e de o assimilar o bastante para sobreviver nos desertos intelectuais que está destinado a atravessar.

É pelo menos o que ele há de tentar fazer, se acalentar a esperança de uma vida melhor.

São anos encantados, em que ele pode, se decidir assim, vir a ser o que quiser e passar em revista todas as alternativas, não só as que o momento ou a carreira profissional proporcionam, mas também aquelas que se lhe oferecem como ser humano.

Não há que superestimar a importância desses anos para um jovem americano: constituem a única possibilidade de se tornar um ser civilizado. Ao observá-lo, somos levados a refletir sobre o que ele deve aprender para que o julguem cultivado e a indagar qual é a natureza do potencial humano cujo desenvolvimento nos cabe.

Nos estudos especializados, pode-se dispensar essa reflexão – é uma das vantagens da especialização. Mas, neste caso, trata-se de um dever elementar. Que vamos ensinar a este rapaz, a esta moça? A resposta talvez não seja evidente, mas tentar responder já é filosofar, já é começar a educar.

Essa preocupação coloca por si mesma a questão da unidade do homem e a das ciências. É pueril dizer, como tantos dizem, que se deve permitir que todos se desenvolvam livremente, que é autoritarismo impor uma opinião ao aluno.

Se é assim, para que serve a universidade?

Se a resposta for “para propiciar uma atmosfera favorável à instrução”, voltamos ainda uma vez às questões originais.

Que tipo de atmosfera? É impossível evitar as opções e a reflexão sobre os motivos de tais opções.

A universidade tem de simbolizar alguma coisa.

Se não se quer refletir positivamente sobre o conteúdo da “educação liberal”, isto é, das matérias dadas nos quatro anos de faculdade, os resultados práticos serão, de um lado, que todas as vulgaridades do mundo externo à universidade vão prosperar no seio dela e, por outro lado, que será preciso impor ao estudante um esforço bem mais duro e menos liberal decorrente das exigências imperiosas das disciplinas especializadas que não passaram pelo filtro de um pensamento unificador.

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