fbpx
O Estudante e a Universidade – Parte II

O Estudante e a Universidade – Parte II

Allan Bloom
Tradução: João Álvez dos Santos

A universidade atual não apresenta uma face bem definida ao jovem.

As disciplinas vivem aí em democracia – seja porque são autóctones ou porque foram adotadas recentemente para cumprir alguma função exigida à universidade.

A democracia é na realidade uma anarquia, pois a cidadania acadêmica não reconhece regras nem há títulos legítimos para estabelecê-las.

Em resumo, não há qualquer noção, nem sequer noções antagônicas, do que seja um ser humano cultivado.

A própria questão desapareceu, pois colocá-la seria uma ameaça à paz. Não existe organização das ciências, morreu a árvore do conhecimento. Do caos emerge um profundo desânimo, já que é impossível fazer opções racionais.

Melhor seria renunciar à cultura geral e adotar uma especialidade, a qual pelo menos tem um currículo obrigatório e uma perspectiva de carreira. De passagem, o estudante pode obter em cursos de sua escolha um pouco de tudo quanto se imagina fazer um homem culto.

Dessa forma, já não esperará que, graças ao que vai aprender, grandes segredos lhe serão revelados, motivos de ação novos e mais elevados virá a descobrir dentro de si, elaborando enfim harmoniosamente um sistema de vida diferente e mais humano.

Simplesmente, a universidade não faz distinções. Nos Estados Unidos, a igualdade parece culminar na recusa e na incapacidade de aspirar à superioridade, sobretudo nos domínios em que sempre se manifestaram tais aspirações: na arte, na religião e na filosofia.

Quando Max Weber percebeu que não podia escolher entre certos princípios opostos – razão contra revelação, Buda contra Jesus – não concluiu que todas as coisas são boas por igual e que a distinção entre a superior e a inferior desaparece. De fato, sua intenção era revitalizar essas grandes alternativas, mostrando a gravidade e o perigo que envolvia a escolha entre elas.

Tratava-se de realçá-las, comparando-as às triviais considerações da vida moderna, que ameaçavam assumir demasiada importância e tornar imperceptíveis os profundos problemas cujo confronto faz retesar o arco do espírito.

Para ele, a vida intelectual séria era o campo de batalha das grandes decisões, as quais são todas opções espirituais ou “valorativas”, axiológicas.

Já não cabe apresentar esta ou aquela opinião em particular do homem culto ou civilizado como dotada de autoridade; portanto, deve-se dizer que a educação consiste em conhecer, conhecer verdadeiramente, um pequeno número dessas opiniões na sua integralidade.

Esta distinção entre o profundo e o superficial – que substitui o bom e o mau, o verdadeiro e o falso – proporcionou uma base para estudos sérios, mas mal resistiu à natural tendência democrática para perguntar “Para que serve isso?”

As primeiras manifestações universitárias, em Berkeley, eram dirigidas explicitamente contra a pluridisciplinaridade e, tenho de confessar, por momentos me despertaram uma simpatia parcial.

Pode até ser que, na motivação dos estudantes em revolta, houvesse alguma nostalgia da educação propriamente dita.

Mas nada se fez para orientar ou canalizar a sua energia, e o resultado foi simplesmente acrescentar múltiplos ”estilos de vida” às multidisciplinas, a diversidade da perversidade à diversidade da especialização.

O que nós vemos tantas vezes na vida em geral também ocorreu ali: a insistente demanda por uma comunidade maior redundou em maior isolamento.

Não é tão fácil substituir antigos arranjos, antigos hábitos e antigas tradições.

Este post tem um comentário

  1. O testo cita o Max WEbber, mas não seria o caso do Max Scheller?

Deixe uma resposta

Fechar Menu
×
×

Carrinho