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O Estudante e a Universidade  – Parte III

O Estudante e a Universidade – Parte III

Allan Bloom
Tradução: João Álvez dos Santos

Assim, quando um novo aluno chega à universidade, encontra uma desconcertante variedade de departamentos e uma diversidade não menos atordoadora de cursos.

E não existe nenhuma orientação oficial, nenhum acordo à escala universitária sobre o que ele deveria estudar.

Em geral, não encontra sequer bons exemplos, seja entre os estudantes, seja entre os professores, de um emprego coordenado dos recursos da universidade.

O mais simples é optar por uma carreira e se preparar para ela. Os programas previstos para os que fizerem a opção tornam os estudantes imunes às tentações que poderiam afastá-los do que se convencionou ser respeitável.

Nos tempos que correm, as sereias cantam solto você e os jovens já têm muita cera nos ouvidos para passar no meio delas sem perigo. Essas especialidades farão com que bastantes cursos lhes tomem a maior parte do tempo por quatro anos de preparatórios para inevitável graduação profissional.

Com os outros poucos cursos que restarem, poderão fazer o que mais lhes agrade, um bocado deste, um bocado daquele. Mas, na nossa época, nenhuma profissão liberal ou pública – medicina, direito, política, jornalismo, administração ou espetáculos – tem grande coisa a ver com as ciências humanas.

Até se diria que uma formação que não seja puramente profissional ou técnica representa um inconveniente. Eis aí por que seria necessário na universidade um clima de compensação, para que o aluno adquira gosto pelos prazeres intelectuais e aprenda que eles são duradouros.

O verdadeiro problema está nos alunos que chegam à universidade na esperança.de descobrir que carreira vão seguir ou de viver uma aventura pessoal. Não lhes falta o que fazer cursos e disciplinas em número suficiente para ocupar uma vida inteira.

Cada departamento ou cada grande divisão tem a sua peculiaridade, todos oferecendo um programa de estudos que fará do aluno um iniciado. Mas, como escolher um? Como é que eles se relacionam entre si?

Na verdade, não há correspondência. São competitivos e contraditórios, sem consciência disso. O problema do conjunto se manifesta com urgência pela própria existência das especialidades, mas nunca é colocado de forma sistemática. Decididamente, o efeito que produz sobre o estudante a leitura do programa da faculdade é perplexidade e, muitas vezes, desmoralização.

Só por acaso encontra um ou dois professores capazes de lhe proporcionar um esboço de uma das grandes concepções da educação que constituíam o sinal distintivo de toda nação civilizada. Na sua maior parte os professores são especialistas, preocupados somente com sua área, interessados no avanço dessa área, mas nas condições que lhes são próprias, ou então no seu progresso pessoal, num mundo onde todas as recompensas vão para a distinção profissional.

Conseguiram se emancipar por completo da velha estrutura da universidade, a qual pelo menos contribuía para pôr em evidência que eles são incompletos, meras partes de um todo por examinar e por descobrir. Assim, o calouro tem de navegar no meio de uma multidão de camelôs de barraca de carnaval, todos interessados em atraí-lo para o seu número especial.

Esse estudante indeciso é um embaraço para a maior parte das universidades, pois parece estar dizendo: ”Eu sou um ser humano por inteiro. Ajudem-me a me formar na minha inteireza e a desenvolver todas as minhas capacidades”.

Mas elas não têm o que lhe responder.

Como em tantos outros casos, a Universidade de Cornell estava adiante de seu tempo neste terreno. O programa de seis anos para o doutorado em filosofia, generosamente financiado pela Fundação Ford, destinava-se especificamente aos alunos das escolas secundárias que já tivessem feito “uma firme opção de carreira”, a cujo início visava conduzi-los.

Aos desolados professores de letras deu-se uma propina em dinheiro, a fim de criar seminários que esses doutorandos poderiam seguir enquanto freqüentavam o College of Arts and Sciences (os primeiros quatro anos de faculdade).

Quanto ao resto, os educadores poderiam consagrar toda a sua energia planejando e repartindo o programa, sem ter de lhe incorporar substância alguma. Isso os manteve suficientemente ocupados para não terem de pensar na nulidade do seu esforço.

Tem sido esse o modo preferido de não fazer face à Fera da Floresta: estrutura e não conteúdo.

O plano da Universidade de Cornell para resolver o problema da educação liberal (os quatro anos de ensino de cultura geral) constituiu em suprimir toda a aspiração por tal ensino, encorajando-lhes as ambições profissionais e materiais, aplicando dinheiro e todo o prestígio de que a universidade dispunha para fazer do carreirismo o núcleo de suas atividades.

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