O Estudante e a Universidade  – Parte IV

O Estudante e a Universidade – Parte IV

Allan Bloom
Tradução: João Álvez dos Santos

O plano de Cornell não teve a coragem de revelar a verdade verdadeira, um bem guardado segredo: as faculdades (colleges) não têm matéria suficiente para lecionar aos alunos e que justifique retê-los por quatro anos, se não por três.

Se o objetivo é uma carreira profissional, dificilmente haverá uma especialidade, fora a mais árdua das ciências exatas, que exija mais de dois anos de curso preparatório à graduação universitária especializada.

O resto é perder tempo ou um período de espera até que os alunos tenham maturidade suficiente. Para muitas profissões, o tempo necessário de preparação ainda é menor.

É espantoso ver quantos alunos do primeiro ciclo superior vagueiam em busca de cursos para seguir, sem plano algum, sem levantar questões, simplesmente para ocupar seus anos de faculdade. De fato, com raras exceções, tais cursos já são especializados, não se destinam a ministrar cultura geral ou a aprofundar questões importantes para o ser humano em geral.

A chamada explosão dos conhecimentos e a crescente especialização não enriqueceram os anos do college: esvaziaram-nos. Esses anos são um embaraço e todos querem sair deles. E, em geral, a julgar por seus gostos, seus conhecimentos e seus interesses, os profissionais liberais que nós encontramos não precisariam ter frequentado quatro anos de educação liberal ou de cultura geral.

Poderiam muito bem ter passado os anos de faculdade no Peace Corps ou coisa parecida. O fato é que as grandes universidades, capazes de realizar a fissão do átomo, de descobrir a cura para as mais terríveis doenças, de conduzir pesquisas sobre populações inteiras e de produzir monumentais dicionários de línguas mortas, são impotentes para elaborar um modesto programa de educação geral para os estudantes do primeiro ciclo universitário.

Eis um sinal dos tempos. Houve tentativas de preencher o vácuo sem dor, com embalagens de fantasia para aquilo que já existia: opções de estudo em outros países, temas individualizados de estudo etc.

E temos os programas de estudo de Cultura Negra, da Condição Feminina, além do Adquira Outra Cultura. Os Estudos pela Paz estão a ponto de ganhar idêntica preponderância.

Tudo isso se destina a provar que a universidade ”está aí” e que tem algo além de suas especialidades tradicionais.

A última novidade é a alfabetização do computador, novidade cuja insignificância só se torna plenamente clara a quem pense um pouco no que quer dizer alfabetização.

Ainda faria sentido promover a alfabetização dos alfabetizados, pois muita gente com o curso secundário completo só com muita dificuldade consegue ler e escrever.

Muitas instituições vêm empreendendo em silêncio essa meritória tarefa, mas não a trombeteiam, já que se trata de uma função do ensino secundário e só o triste estado dos negócios da educação atribuiu a missão às universidades, o que elas não estão inclinadas a proclamar.

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