fbpx
O Estudante e a Universidade  – Parte V

O Estudante e a Universidade – Parte V

Allan Bloom
Tradução: João Álvez dos Santos

Agora que já acabaram as distrações dos anos 60 e que os estudos do primeiro grau universitário voltaram a adquirir importância (porque os departamentos de graduação, além das escolas profissionais, têm problemas devido à falta de empregos acadêmicos), os dirigentes universitários tiveram de atentar para o fato inegável de que os estudantes que entram para o ensino superior são incivilizados e que temos certa responsabilidade para civilizá-los.

Se fôssemos dar uma interpretação mesquinha dos motivos das instituições, dir-se-ia que a preocupação delas deriva da vergonha e do interesse próprio. Está ficando bem patente que ”educação liberal”, missão obrigatória de pequeno grupo de instituições prestigiosas – por oposição às grandes escolas estaduais, que se destinam somente a preparar especialistas para atender às exigências práticas de uma sociedade complexa -, não tem conteúdo algum, que se está perpetrando uma certa espécie de fraude.

Durante algum tempo, a bela consciência moral que se dizia terem as grandes universidades estimulado nos estudantes, principalmente a vocação de gladiadores contra a guerra e o racismo, parecia satisfazer as exigências da consciência coletiva das universidades.

Estavam fazendo alguma coisa mais do que oferecer instrução preliminar a futuros médicos e advogados.

Estimava-se que a preocupação com os outros e a compaixão eram o elemento indefinível que impregnava todas as partes do campus devotado às Artes e Ciências.

Mas, quando essa poalha se dissipou, nos anos 70, e as faculdades se viram face a face com jovens incultos, desprovidos de todo interesse intelectual – inconscientes da existência de tais coisas, obsediados pela ideia de vencer na carreira antes mesmo de ter observado a vida -, sem que as universidades oferecessem alguma compensação, ‘meta alternativa alguma, teve início uma reação.

A ”educação liberal” – como sempre foi mal definida, não tem a nítida claridade nem o prestígio institucionalizado dos estudos profissionais, mas não obstante persiste, é subvencionada e respeitada – sempre foi um campo de batalha para aqueles que se situam numa posição algo excêntrica relativamente às disciplinas especializadas.

De certa forma, está como as igrejas em relação aos hospitais, digamos. Ninguém sabe bem o que é que as instituições religiosas virão a fazer, mas elas não deixam de desempenhar um certo papel, seja para responder a uma verdadeira necessidade humana, seja como vestígio do que outrora foi uma necessidade.

E não há dúvida de que elas oferecem um terreno favorável aos charlatães, aos aventureiros, aos maníacos e aos fanáticos, mas também incitam os mais calorosos e denodados esforços de pessoas de profundo caráter. Da mesma forma, no primeiro ciclo universitário, onde se ministra a “cultura liberal”, também os piores e os melhores lutam – falsários contra autênticos, sofistas contra filósofos – pelo pavor da, opinião pública e pelo controle sobre o estudo do homem.

Os combatentes de maior evidência são os administradores, já que lhes cabe a responsabilidade formal de apresentar ao público uma imagem da educação que seus estabelecimentos oferecem, mas também pessoas que defendem uma linha política, vulgarizadores que querem divulgar o conteúdo das disciplinas especializadas e, enfim, os verdadeiros professores de ciências humanas, que sabem ver a relação delas com o conjunto dos conhecimentos e que anseiam por manter essa convicção na consciência dos alunos.

Portanto, assim como nos anos 60 as universidades se dedicaram a reduzir ou a suprimir as exigências escolares, nos anos 80 estão atarefadas em restabelecê-las, tarefa muito mais difícil. A ordem do dia é “programa fundamental”. Em geral se admite que “fomos um pouco longe demais na década de 60” e que se tornou evidente a necessidade de afinar a orquestra.

O problema comporta duas soluções típicas. A mais fácil e mais satisfatória do ponto de vista administrativo consiste em recorrer ao que já existe nos departamentos autônomos e obrigar pura e simplesmente os alunos a cobrir as matérias, ou seja, a seguir um ou mais cursos em cada uma das divisões gerais da universidade: ciências exatas, ciências sociais e letras.

A ideologia dominante, neste caso, é amplidão, tal como o foi abertura na época do relaxamento. Quase sempre, trata-se de cursos preparatórios já existentes, os quais têm pouco interesse para os principais professores e se limitam a afirmar o valor e a realidade do que se deve estudar.

Em suma, educação genérica, no mesmo sentido em que um homem-dos-seteinstrumentos é um “generalista”.

Sabe de tudo um pouco, mas é inferior ao especialista em cada área.

Pode ser que os estudantes queiram experimentar uma variedade de disciplinas e talvez seja bom incentivá-los a olhar em volta e verificar se alguma coisa os atrai em um domínio que lhes seja estranho.

Mas isso não é “educação liberal” ou cultura geral e não satisfaz a aspiração que dela possam ter.

Tudo o que isso lhes ensina é que não existe generalismo de alto nível e que aquilo que estão fazendo representa apenas os preliminares de seus verdadeiros estudos, de certa forma o último estágio da infância que estão deixando para trás.

Aí, terão vontade de superar essa etapa e de se lançarem ao que os professores ensinam a sério.

Sem discernir as questões importantes que afetam a espécie humana, não haverá jamais “educação liberal” e todas as tentativas para difundi-la não passarão de gestos inúteis.

Deixe uma resposta

Fechar Menu
×
×

Carrinho