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O Estudante e a Universidade   – Parte VI

O Estudante e a Universidade – Parte VI

Allan Bloom
Tradução: João Álvez dos Santos

É uma consciência mais ou menos precisa da impropriedade deste método para criar um programa fundamental que motivou o recurso a um segundo método: o dos cursos compostos.

São cursos elaborados especialmente para fins de educação em geral e que normalmente requerem a colaboração de professores vindos de vários departamentos.

São designados pelos seguintes títulos: O Homem na Natureza, A Guerra e a Responsabilidade Moral, As Artes e a Criatividade, A Cultura e o Indivíduo. Evidentemente, tudo depende de quem os planeja e de quem os leciona.

Eles têm a clara vantagem de exigir uma certa reflexão sobre as necessidades em geral dos estudantes e de obrigar os professores especializados a ampliarem suas perspectivas, ao menos por um momento. Mas também comporta riscos: tendenciosidade, mera popularização e falta de rigor substantivo. Regra geral, os professores de ciências não participam desse esforço e, portanto, os cursos tendem a ficar desequilibrados.

Conclusão: não desvendam nada além da matéria lecionada e não proporcionam aos alunos meios intelectuais independentes que lhes permitam aprofundar por si mesmos questões permanentes, o que, por exemplo, o estudo de Aristóteles ou de Kant no seu conjunto dava a possibilidade de fazer.

São cursos fragmentários. Ora, a “educação liberal” deveria dar ao estudante o sentimento de que aquilo que aprende pode e deve ser sinótico e preciso ao mesmo tempo. Para tanto, o estudo detalhado de um problema menor pode muito bem constituir o melhor método, se o problema for levantado de maneira a oferecer uma abertura para o conjunto da realidade. A menos que o curso tenha a intenção de encaminhar o aluno para as questões permanentes, de lhe despertar a consciência de tais questões e de lhe emprestar certa competência para o estudo das obras que tratam disso, não passará de uma agradável diversão que redunda num beco sem saída – pois não tem nada a ver com qualquer programa de estudos posteriores que o aluno queira seguir.

Se os programas preparatórios merecerem as melhores energias dos melhores da universidade, poderão ser benéficos e proporcionar aos professores e aos alunos um pouco daquela animação Intelectual que tanta falta.

Mas isso raramente acontece, além dê estarem muito desligados do ponto máximo da carreira, daquilo que as várias faculdades consideram da sua competência. O que determina a vida de um organismo inteiro é o local onde reside o poder.

E os problemas intelectuais que não são resolvidos no ponto máximo não podem sê-lo ao nível inferior da administração. A dificuldade está na total carência de unidade das ciências e na falta de vontade e de meios para discutir a questão.

A doença ao nível superior causa a doença ao nível inferior, e todos os esforços bem-intencionados dos professores honestos do primeiro ciclo universitário (colleges) serão, na melhor das hipóteses, meros paliativos.

Evidentemente, a única solução séria é que quase todo mundo rejeita: o retorno aos Grandes Livros antigos.

Para adquirir uma cultura geral, cumpre ler certos textos clássicos de valor reconhecido, apenas ler, deixando que eles ditem as questões e o método para abordá-las – não os obrigando a entrar nas categorias que nós engendramos, não os tratando como produtos históricos, mas procurando lê-los como seus autores gostariam que fossem lidos.

Estou perfeitamente a par e na verdade até concordo com as objeções ao culto dos Grandes Livros: é amadorístico e encoraja a presunção dos autodidatas sem competência, não é possível que se leiam detidamente todos os Grandes Livros e, se apenas lemos essa coleção, jamais saberemos o que é uma grande obra por oposição a outra comum; ninguém sabe quem deve decidir o que é um Grande Livro ou qual é o cânone; os livros se transmutam em fins, em vez de ser meios; todo o movimento em prol da sua leitura tem tom de evangelismo grosseiro, contrário ao bom gosto; gera uma intimidade espúria com a grandeza – e assim por diante. Uma coisa é certa, porém: quando os Grandes Livros constituem uma parte basilar do currículo, os alunos ficam emocionados e satisfeitos, têm a impressão de estar fazendo um trabalho independente em que se realizam, recebendo da universidade algo que não poderiam conseguir fora dela.

O simples fato dessa experiência particular, que não conduz a nada além de si mesma, oferece aos alunos uma nova alternativa e respeito pelo próprio estudo.

Agora, eis as vantagens: consciência da importância dos clássicos, deveras importante para os calouros; o conhecimento do que eram as grandes questões, quando ainda havia grandes questões; modelos, no mínimo, para tentar equacioná-las; e, o que talvez seja o mais importante de tudo, um fundo de experiências e de pensamentos compartilhados, que serve de fundamento para o estreitamento das amizades.

Programas baseados no uso judicioso dos grandes textos abrem a estrada larga que leva ao coração dos estudantes. Ao aprenderem sobre Aquiles ou sobre o imperativo categórico, exprimem uma gratidão ilimitada.

Alexandre Koyré, o historiador da ciência já falecido, contou-me que sentiu enorme estima pelos Estados Unidos quando um aluno, no primeiro curso que ele ministrou na Universidade de Chicago, no começo do seu exílio, em 1940, se referiu numa prova ao Sr. Aristóteles, desconhecendo que não se tratava de um contemporâneo.

Para Koyré, somente um americano poderia ter a ingênua profundidade de considerar vivo o pensamento de Aritóteles, o que é impensável para muitos intelectuais.

Um bom programa de cultura geral incute no estudante o amor da verdade e a paixão de viver uma existência feliz.

Seria a coisa mais fácil do mundo programar cursos adaptados às condições particulares de cada universidade, capazes de emocionar quem os siga.

A dificuldade reside em que a faculdade os aceite.

Nenhuma das três grandes divisões da universidade contemporânea manifesta entusiasmo pela leitura dos Grandes Livros como método de ensino.

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