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A falta do herói

A falta do herói

A palavra “herói” que anda em nossas bocas já está sem tempero, sem sal, insossa como o alimento mal preparado; pois, quando falamos sobre heróis, acabamos por imaginar um mocinho irritado a busca de vingança.

Nos filmes, esse herói, às vezes até parece lutar por algo nobre, na figura de um homem sensato, inteligente, que exala um odor de justiça. No entanto, nossos mocinhos de hoje, nossos super-heróis!, agem pontualmente em seus egoísmos ou tentam salvar seu país ou o universo todo – por que não o universo todo? – de alguma criatura gigante, feia o suficiente para ser digna da última fase do jogo de video game.

Mas não seria isso mesmo o herói? Aquele que dá a vida? Se levamos em conta que alguém pode dar a vida por qualquer motivo, vemos que poucos são os motivos que podem qualificar um ato heróico.

E de onde essa figura importantíssima se perdeu? A resposta é bem fácil. Se perdeu do drama humano real. Encaixou-se em alegorias fraquíssimas, em ícones de bestialidade e símbolos miseráveis, ou também naquele esquema de introdução – conflito – clímax – desfecho. Se perdeu da literatura e da realidade essencial que todo homem deve conhecer. Acabaram-se os exemplos dos gregos dos ciclos das tragédias, de Ulisses, Enéias e até de Cristo. A literatura e a capacidade de visitar o próprio interior à busca de algum ideal hoje é uma proibição.

Convém uma brevíssima apresentação de dois heróis que já foram muito mais conhecidos, cujas epopeias se fizeram após a guerra de Tróia.

Ulisses, da Odisseia de Homero, foi o grego que buscava revisitar mulher e filho deixados há tanto tempo após guerra. Por todo tipo de tentações a sua espinha tremeu e a carne fraquejou; por tantas vezes deixou o barco abandonado sobre sua derrota até que pudesse reerguer-se e voltar à viagem. A situação piorava, seu reinado, ameaçado por uma geração de homens sem pais, que estavam na guerra, carecia do rei.

Eneias, na epopeia de Virgílio, estava em busca por uma reconstrução de Tróia. Se vê aqui, na literatura o seguir dos passos dos gregos. Nessa epopeia, a busca era do local da nova cidade e a inspiração de Eneias estava na sua piedade, sempre buscando a ligação com os deuses; aliás, a obra de Virgílio foi uma explosão de heroísmo, não foi problema nem aos intelectuais cristãos medievais o terem como herói, porque sua inspiração faria parte de uma etapa do mundo anterior à vinda do Salvador, na qual era cedo para que o autor suspeitasse sobre uma revelação de Deus.

Nesses exemplos, falamos de histórias que apresentam mundos novos aos homens, personagens que se instalaram profundamente no coração do ocidente, mas hoje mais se vêem como estátuas de gesso.

Por fim, nossos heróis duram hoje por volta de vergonhosas duas horas e não são o suficiente para remover jovens nem mesmo das suas tristezas mais contingentes. Coloquemos os corações em nosso interior mais profundo, pois é bom que nossa vida seja submersa integralmente no bom exemplo das epopeias e das narrativas humanas essenciais.

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