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Uma nota à ordem dos estudos

Uma nota à ordem dos estudos

A imaginação e a inteligência não são como um artigo acadêmico, um dicionário, nem mesmo como uma enciclopédia. Às vezes parece que as discussões a respeito da educação ciscam em volta de um modelo de intelectual que tudo responde, tudo compreende e que puxa gavetinhas com informações, manipula uns documentos, umas fichas de leituras, depois acrescenta mais umas, grampeia outras com toda a elegância.

Estamos vendo um fenômeno bastante esquisito, em que nossa imaginação produz e alcança tão pouco, que compreendemos a nossa inteligência como se fosse esta sala de arquivos, cujos armários já saem separando tudo que vemos nas suas categorias e assim por diante. No caso de muitos, esta sala é bastante distante do cômodo da alegria e do entretenimento.

Portanto vemos um mundo repartido de um jeito estranho, em que toda a experiência humana, a literatura e até as humanidades ficam na parte do subjetivo, do divertimento, das coisas efêmeras e voláteis enquanto os estudos propriamente ditos ficam na parte dos dados objetivíssimos, algoritmos perfeitos e são a fonte do mundo melhor, representados tanto pela tecnologia e pelos cálculos integrais e diferenciais quanto pelo sucesso acadêmico. Desse mundo objetivo é que saem as verdadeiras histórias, em que tudo está “cientificamente” bem estruturado.

Essa visão de mundo ainda tem outros compartimentos muito “interessantes”, mas não precisamos descrever mais do que isso para compreender a miséria em que seus detentores se encontram. Basta um pequeno exame e os reconhecemos; são aqueles que estudam ou gostam dos temas objetivos, “científicos” e dispensam a literatura e as narrativas humanas importantes, ou acreditam que a literatura é apenas um caminho inicial para compreender coisas que já conhecem muito bem. E quando fazem isso para temas como filosofia, teologia ou antropologia, são ainda mais caricatos. É como se lessem uma crítica a pinturas renascentistas de temas homéricos e não conhecessem nem a obra de Homero, nem a pintura a que a crítica se refere.

A inteligência é mais do que isso. É o que nos permite integrar o mundo numa unidade. Na nossa história humana, esse foi o verdadeiro esforço dos amantes do conhecimento e da sabedoria, a busca da verdade e da unidade, usando-se de tudo de melhor que o homem produziu a começar pelas narrativas, pelos mitos, lendas, dentre todo tipo de poesia até que o discurso se tornasse algo mais estruturado e subdividido, trata-se de um caminho a ser trilhado, o qual não pode ser cortado e nem iniciado do meio ou do fim. Em suma, desse modo, estamos agindo como um grupo de arquitetos e engenheiros, que tenham desenhado um prédio sofisticado e enorme, comprado materiais de construção e só depois de tudo isso conferido o tamanho do lote, o tipo de superfície e o terreno da construção.

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