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Primeira etapa da formação interior

Primeira etapa da formação interior

O que pode resistir à degeneração moral e espiritual de qualquer pessoa? Não é impossível buscar uma saída. Então aprendamos uma lição da história da humanidade de uma vez por todas: as narrativas, ficcionais ou não, ultrapassam os tempos e podem ser a principal força motriz do bem e do mal.

Para notar isso, pensemos: à manipulação e transformação das coisas materiais, a dar forma ao mármore, a pincelar e revelar uma composição artística, a misturar ingredientes e obter o alimento ou a dar pancadas e conformar o aço do caráter amorfo à lâmina afiada usamo-nos da própria matéria; porém, a dar forma ao caráter, à boa imaginação, às coisas do espírito, usamo-nos de elementos que passam muito mais despercebidos, que são nossas projeções da imaginação, as imagens que produzimos a cada instante.

As narrativas que ultrapassaram os tempos, podem se equiparar a processos de transformação. Nosso próprio espírito e intelecto é a matéria transformada por elas. Em nosso intelecto, fabricam os exemplos ideais, de heroísmo, de sentimentos e ações boas ou destruidoras. Sem essas formas prontas e consolidadas, não somos capazes de conduzir a nós mesmos para onde desejamos ir, ou nos transformarmos em quem desejamos ser.

Mas não só os exemplos diretos, temos também a narrativa como ferramenta. De que tipo seria essa ferramenta? São ferramentas que podemos usar para explorar nosso mundo interior. Para expor melhor disso, tomemos por exemplo a descida de Odisseu ao mundo inferior de Hades. Lá ele encontra pessoas que estiveram presentes no seu passado e elas o informam de coisas novas, dizem verdades reveladoras ou até duvidosas. Podemos, nesse caso, transformar a viagem ao mundo inferior governado pelo deus Hades em uma viagem ao nosso próprio mundo interior, como num mergulho em nós mesmos, onde encontramos nossas paixões, nossos vícios e virtudes, nossos ideais e o próprio universo que conhecemos e estabelecemos como real, em suma, nosso microcosmos. Quantas vezes pensando no passado, e nos nossos próprios atos, não conseguimos reconhecer o que está para acontecer no mesmo dia, talvez na mesma hora, o mesmo infortúnio ou alegria que esteja por vir. Nesse momento, poderíamos usar a narrativa de nossa própria história de vida para compreender as coisas mais profundas que estão nas vidas de todos os homens.

É assim mesmo que se dá o uso dos símbolos e por que não de símbolos riquíssimos organizados numa grande epopeia? Daí é que podemos falar em tradição. A tradição ocidental foi a que levou o homem ao conhecimento de si mesmo, e essas narrativas, desde aquelas dos gregos até as bíblicas, continuam a nos levar `à exploração das verdades mais profundas e à construção do nosso caráter, é daí que vem a força motriz das narrativas, são como que vidas, gestos, ações gravadas no tempo.

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