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Uma alegoria de Marciano Capella

Uma alegoria de Marciano Capella

Na introdução de “O Casamento de Filologia e Mercúrio”, Marciano Capella traça, de modo alegórico, a relação entre os estudos e a alma humana.
Ele narra que o deus Mercúrio estava à procura de uma pretendente. Em dado momento, o deus cogita propor casamento à Psique. Neste momento, o autor começa a descrever os presentes, ou dons, que Psique recebera dos deuses ao nascer, o que é uma forma de elencar as suas potencialidades. Lemos que Júpiter dera-lhe o diadema da imortalidade, a sábia Athena, o seu manto, Apolo, o dom da profecia em diversas formas, a musa Urânia, um espelho celeste para que ela pudesse conhecer a si mesma e as suas origens. Já Afrodite besunta com um óleo cada um dos seus sentidos, infundindo nela o desejo por ouro e joalherias, e o desejo interior por prazeres e deleites. O próprio Mercúrio a presenteara com os ligeiros veículos da cogitação e da imaginação, os quais, porém, estão à mercê da memória.
No entanto, prossegue a narrativa, para o desânimo do mensageiro dos deuses, a deusa Virtude conta que Psique havia sido raptada da sua presença por Cupido, que a mantinha em cativeiro com correntes de adamante.

Mais do que uma alegoria descritiva, essa passagem é também faz uma advertência que não convém ser ignorada pelo aluno que se está iniciando nos estudos liberais. Por isso, vamos deter-nos nela um pouco, tendo sempre em conta que é necessário conhecermos em certa medida e nos colocarmos dentro da cosmovisão antiga, a fim de nos aproximarmos das Artes Liberais.
Como é claríssimo, o autor está discorrendo sobre a alma humana (Psique). Sabemos disso porque ele menciona os dons da profecia e da imortalidade, que não convém aos animais brutos e a outros entes providos de almas irracionais. Ficam sendo, assim, esses dons as potencialidades da alma humana, segundo a visão de Capella.
Podemos a partir do texto inferir mais. Primeiramente, que o mais natural é que a alma tenda na direção das coisas sensíveis e prazeirosas. Isso está evidenciado pelo rapto de Psique por Cupido, deus do amor e filho de Vênus, a qual dotou a Alma com a potência para o deleite sensível. E psique encontra-se presa por correntes de adamante, a liga metálica mais forte conhecida pelos antigos. Em outras palavras, o autor está dizendo que é muito difícil que a alma humana se desligue de sua propensão ao prazer sensual e ao luxo.
Essa propensão deve ser levada a sério pelo aluno. Ela implica que a alma não tende naturalmente para a virtude; muito embora se deixe entrever, no texto, que em algum momento a alma e a virtude se fizessem companhia. Mas não mais agora. É necessário, entende-se, um esforço hercúleo para não se deixar levar pelos meros prazeres do mundo material; para, ao contrário, seguir com resolução no caminho da virtude. É como se Capella estivesse a dizer que a alma tem vastas potencialidades, mas que, deixada a si mesma, limita-se a buscar prazeres venéreos.
Relativo à área que mais nos diz respeito aqui, vemos que Mercúrio também deu presentes a Psique. Para os devidos fins, vamos dizer que Mercúrio significa a tendência ao conhecimento, aos estudos e à eloquência. Ora, Aristóteles já afirmara que a alma humana deseja naturalmente o conhecimento. Sim, e de fato a semente dessa busca está lá plantada. A contrapelo disso, a experiência revela que, efetivamente, não são muitos os que a fazem medrar. Menos ainda são, é de se concluir, aqueles que usufruem seus outros e mais elevados dons.
Cabe, para não nos estendermos demais, uma última palavra sobre a dependência dos dons mercuriais para com a memória. Capella utiliza termos que dão a entender que esta é um peso e que, por isso, diminui a agilidade do “veículo” de Mercúrio. Trata-se de uma afirmativa curiosa. Se o que Capella expressa com o termo veículo de Mercúrio é a faculdade racional – aqui tomada em um sentido bastante amplo e difuso –, gera-se uma dúvida sobre o sentido em que a memória prende e pesa sobre razão. Uma possível explicação, pela via do simbolismo, é que a memória tem a função de gravar mentalmente os entes do universo físico, que são, por assim dizer, terrestres e graves, ou, em termos aristotélicos, compostos de matéria e forma. Como a razão só pode operar com a forma, e esta jaz “sob” a matéria e seus acidentes, a razão precisa trabalhar “pesado” para extrair a forma da matéria, embora de per si a razão seja leve (uns dirão “leviana”) e rápida em tirar conclusões.
Outra explicação, mais curta, é a de que Capella está apenas se referindo à dificuldade de se gravar e de se trazer as coisas à memória.
Essas são só duas explanações possíveis de um texto complicado, cuja própria tradução constitui-se em um desafio. Todavia, enfrentar este tipo de texto vem a ser uma quase necessidade, mormente por estar no modo alegórico, uma vez que este acaba sendo uma janela por onde conseguimos enxergar, ainda que com dificuldades, como funcionava a cosmovisão antiga; tarefa que, em textos teóricos e doutrinais, é indefinidamente mais complicada.

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