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Educação é para quem quer

Educação é para quem quer

Transcrição da palestra do prof. Clístenes Hafner Fernandes na abertura do I Congresso de Educação Liberal.

O tal acesso universal à educação

Há muitos congressos e há muitas palestras e muitas publicações sobre educação universal, educação como direito de todos. Existe até uma pátria que é chamada “educadora”. Mas nós queremos falar sobre as pessoas que realmente querem educação e que são normalmente as que tem mais dificuldade de ter o tal acesso à educação.

Muito se fala a respeito do acesso à educação, sendo que, talvez, o objeto principal de todos esses congressos, palestras, discussões, publicações sobre o que é a educação, na cabeça de cada pessoa que lê ou escuta, significa algo diferente. Cada um acaba tendo uma noção diferente do que é educação e todos passam a discuti-la simplesmente utilizando a palavra educação, sendo que ela corresponde, na cabeça de cada indivíduo, à realidades diferentes; ou seja, as pessoas não estão falando da mesma coisa. Isso acontece porque não existe um desejo de voltarmos ao verdadeiro conceito do que seria educação, se realmente ela é um direito de todos ou ainda se, sendo um direito de todos, de quem é o dever de provê-la.

E temos muito mais exemplos, para terminarmos essa parte do problema da discussão da educação: podemos falar daquele filho da catadora de papel que acaba encontrando alguns livros, os dá pro filho, o incentiva, o motiva e ele passa em um vestibular; ou ainda de um mendigo que acaba aprendendo dois ou três idiomas porque pedia revistas emprestadas no consulado em SP. Então vemos exemplos que são contrários a esse tal acesso à educação, essa obrigatoriedade de prover educação e de dizer que a educação é um direito.

Bom, se há um direito, há um dever, e no caso do Brasil, todos os direitos são colocados na conta do Estado: o Estado que tem que fazer e os governantes são sempre os responsáveis por tudo.

O sonho de muitos brasileiros é ter um governante que pelo menos não roube. Já ficamos felizes quando há aquele que rouba, mas faz. Reclamamos, mas ficamos contentes com isso. Então atribuímos ao governo funções que, embora pela Constituição lhe sejam competentes, não temos a menor expectativa que sejam resolvidas por ele.

É irreal esperar que ali esteja a solução para problemas que nós podemos começar a resolver hoje mesmo ou, agora que todos nós viemos a esse Congresso, estamos tentando resolver para nossos filhos, para os nossos adultos, mas principalmente para nós mesmos.

O semeador saiu para semear

Vamos falar dessa auto-educação, sem a qual nada é feito, pois não existe educação só pra fora. Existe sim a educação para dentro. Podemos lembrar da parábola do semeador, que é a parábola que dá origem ao sermão da sexagésima, do padre Antonio Vieira. Ali nós temos uma ilustração e uma explicação retórica que se utilizando da mais alta filosofia e da mais alta teologia para explicar a parábola. Sai o semeador para semear um campo e uma parte das sementes cai num terreno seco, outra parte num terreno pedregoso, outra nos espinhos e assim por diante. Mas houve uma outra parte que foi pisada pelos homens.

Diz o pe. Antonio vieira que o semeador é o pregador do Evangelho. A semente é a Palavra de Deus e os diferentes solos são as diferentes condições que a semente encontra para germinar, os diferentes corações dos homens. Ele fala que uma parte das sementes caiu em terreno mineral, outra vegetal, outra animal, pois os passáros vieram e comeram. Outra ainda no terreno humano, que simplesmente passaram por cima e que é o pior de todos, porque o ser humano por ser racional, tem o dever de prestar atenção a certas coisas, enquanto as pedras, os animais e os vegetais, eles simplesmente existem por si só, eles não tem aquela liberdade que o ser humano tem para poder desviar do caminho.

O padre fala que o pregador é o semeador e os nossos corações às vezes são de pedra, às vezes como espinhos que abafam a verdade e outras vezes como os pássaros – nós simplesmente engolimos e a transformamos em fezes – e às vezes somos homens, a pior categoria de todas, aqueles que simplesmente passam por cima, não tem a capacidade de desviar pelo caminho para que o fruto possa crescer. O homem, recebendo aquela semente, tem opção. Para que elas cresçam, ele precisa desviar do caminho que estava percorrendo.

O que o pregador tem a ver conosco? Em princípio, nada. Mas se nós encararmos a figura desse semador como um educador, como um professor, a coisa muda de figura. Não só como um educador dos outros, mas de nós mesmos, dessa semente plantada por nós no nosso próprio intelecto, na nossa própria inteligência, na nossa própria cultura.

As províncias do conhecimento

Enfim, a gente não consegue enxergar o conhecimento de cima. O que isso implica na nossa formação? Sabemos que esse conhecimento existe na universidade, na escola ou em qualquer lugar, no fundo, são essas sementes de verdade que o semeador acaba jogando, ou que nós mesmos acabamos jogando. E elas não têm onde florescer. Elas acabam ficando ali e aí vem os espinhos, o sol, as pedras… É legal em latim, porque diz que as sementes secaram por falta de humor – umidade, no caso. Dá pra fazer aquela leitura etimológica falsa que é muito mais poética que a verdadeira.

Acaba que as sementes foram lançadas e estão aí, as pessoas estão escrevendo livros, dando aulas, discutindo, vindo aqui no congresso, comprando um monte de livros (que geralmente ficam só na prateleira). Se isso é semente que vai secar, que por falta de umidade não vai brotar ou que vai ser pisoteada porque as pessoas não terão a capacidade de desviar do seu caminho pra que ela frutifique, bom, então nada disso vale a pena.

Quando falamos em educação para quem quer estamos falando de algo doloroso, primeiramente. Porque se nós estivermos agindo como pedras, vegetais ou animais, simplesmente estamos deixando que as coisas aconteçam como elas aconteceriam normalmente. Se agirmos como seres racionais, temos que olhar para onde há sementes e não pisar em cima delas para que elas, sendo esmagadas, não acabem se estragando. Um ser racional tem consciência e tem duas opções: ou pisar ou desviar do caminho. Mas quem desvia do caminho, o faz porque há ali algo que não pode ser pisado. Eu vejo que há uma sementeira, então não vou pisar, porque não irá florescer. E quando eu faço isso, eu preciso prestar muita atenção no que está ali, porque a semente é algo muito pequeno, é necessário uma concentração enorme para continuar enxergando aquela semente. Para continuar vendo quais rumos tomar.

E assim acaba sendo a vida de estudos, a vida de educação. Ao iniciarmos somos pedra, espinho ou pássaro (simplesmente engolindo as coisas). As pessoas que não tem acesso (no sentido comum da palavra, acesso universal à educação) normalmente vão agir como pedras e espinhos com relação à realidade. A realidade vai estar ali, mas ela nunca vai parar para pensar naquela realidade. Eu não estou falando só de realidade social, (às vezes a palavra é utilizada somente nesse sentido), eu estou falando de realidade: sol nasce, inverno é mais frio, verão é mais quente, as estrelas brilham, etc. E também de realidade espiritual: a pessoa está de mal humor ou bom humor, triste ou alegre. No caso mais comum, vamos simplesmente vivendo, e a realidade vai passando. Ou somos pedra, que não muda nunca, está sempre estática e são necessários anos de vento, chuva, tempestade de areia para mudar de forma, ou a gente é espinho, vai nascendo e contornando o que está em volta, e aquelas sementes que caíram acabam sufocando, evitando que a semente receba umidade, calor e possa brotar.

As duas opções: pisar ou desviar do caminho

Enfim, a gente não consegue enxergar o conhecimento de cima. o que isso implica na nossa formação? Sabemos que esse conhecimento existe na universidade, na escola ou em qualquer lugar, no fundo, são essas sementes de verdade que o semeador acaba jogando, ou que nós mesmos acabamos jogando. E elas não têm onde florescer. Elas acabam ficando ali e aí vem os espinhos, o sol, as pedras… É legal em latim, porque diz que as sementes secaram por falta de humor – umidade, no caso. Dá pra fazer aquela leitura etimológica falsa que é muito mais poética que a verdadeira.

Acaba que as sementes foram lançadas e estão aí, as pessoas estão escrevendo livros, dando aulas, discutindo, vindo aqui no congresso, comprando um monte de livros (que geralmente ficam só na prateleira). Se isso é semente que vai secar, que por falta de umidade não vai brotar ou que vai ser pisoteada porque as pessoas não terão a capacidade de desviar do seu caminho pra que ela frutifique, bom, então nada disso vale a pena.

Quando falamos em educação para quem quer estamos falando de algo doloroso, primeiramente. Porque se nós estivermos agindo como pedras, vegetais ou animais, simplesmente estamos deixando que as coisas aconteçam como elas aconteceriam normalmente. Se agirmos como seres racionais, temos que olhar para onde há sementes e não pisar em cima delas para que elas, sendo esmagadas, não acabem se estragando. Um ser racional tem consciência e tem duas opções: ou pisar ou desviar do caminho. Mas quem desvia do caminho, o faz porque há ali algo que não pode ser pisado. Eu vejo que há uma sementeira, então não vou pisar, porque não irá florescer. E quando eu faço isso, eu preciso prestar muita atenção no que está ali, porque a semente é algo muito pequeno, é necessário uma concentração enorme para continuar enxergando aquela semente. Para continuar vendo quais rumos tomar.

E assim acaba sendo a vida de estudos, a vida de educação. Ao iniciarmos somos pedra, espinho ou pássaro (simplesmente engolindo as coisas). As pessoas que não tem acesso (no sentido comum da palavra, acesso universal à educação) normalmente vão agir como pedras e espinhos com relação à realidade. A realidade vai estar ali, mas ela nunca vai parar para pensar naquela realidade. Eu não estou falando só de realidade social, (às vezes a palavra é utilizada somente nesse sentido), eu estou falando de realidade: sol nasce, inverno é mais frio, verão é mais quente, as estrelas brilham, etc. E também de realidade espiritual: a pessoa está de mal humor ou bom humor, triste ou alegre. No caso mais comum, vamos simplesmente vivendo, e a realidade vai passando. Ou somos pedra, que não muda nunca, está sempre estática e são necessários anos de vento, chuva, tempestade de areia para mudar de forma, ou a gente é espinho, vai nascendo e contornando o que está em volta, e aquelas sementes que caíram acabam sufocando, evitando que a semente receba umidade, calor e possa brotar.

A necessidade de nutrir-se sempre

Mas aí existe um momento em que a gente entra na escola, na faculdade, ou faz um curso online do IHSV, faz um curso online do prof. Olavo de Carvalho e tantos outros que há por aí e nós somos os pássaros, que vão ali e engolem as sementes. E percebam que o pássaro faz isso por consciência. Ele percebe a importância, então ele come as sementes , que são reais, porque delas vai se nutrir.

Muitas vezes nos encontramos nesse estado diante da semente: vou encontrar e comer porque é bom. Vou comer tudo, vou engolir tudo que eu posso; as coisas vão chegando, vou me matriculando em cursos, vou trabalhando, consigo emprego melhor, salário melhor e eu realmente tenho o nobre desejo de me matricular em outros cursos, de comprar mais livros, encher a minha estante e por aí afora. Mas sabemos o que acontece com o alimento, a gente nutre e amanhã precisamos de novo, todos os dias precisaremos. Não posso comer quatro vezes mais hoje porque nos próximos quatro dias não vou ter tempo de comer. Não é assim.

Muitos julgam que o estágio de pássaro comendo semente é transitório, que será superado e somente após passaremos a ter uma vida intelectual, ajudaremos os outros na sua vida de estudos e a fase de pássaro não existe mais. Não, a necessidade de nutrir-se é diária.

O estudo não é um fim em si mesmo

Estudo significa vontade. Podemos traduzir por vontade de estudar, de saber. Mas o estudo não é o objeto em si, ele não tem nenhuma carga subjetiva. Tanto que, em latim, nós usamos a palavra estudo com o ablativo, como se fosse um instrumento, não como um objeto fora de nós. Seria melhor eu dizer: eu estudo pela matemática, eu estudo pelas línguas, eu estudo através dessas coisas.

E o meu objetivo é maior do que tudo isso. A gente costumar se referir ao propósito do estudo com objeto direto: eu estudo geografia. Para quê? O que eu vou fazer com geografia? Para passar num concurso público, para ser professor de geografia, ou numa empresa que precise de um geógrafo e por aí a fora. Só isso? Pode ser, mas é muito pouco.

Mas quando eu estudo pela geografia, através da geografia, pela matemática, através da matemática, como nós adquirimos esse estudo? Quando não somos mais pássaro, e somos homens. E há um risco para o homem, pois ele tem escolha; o pássaro, não. O pássaro vê a semente e come. Não há como deixar um grão de milho diante de uma galinha esperar que ela julgue se é apropriado comer ou não o milho. Ela não tem escolha.

A liberdade

Se a pessoa não sabe (uma coisa bastante óbvia) que tem dias chuvosos, dias de muito sol e dias muito frios, ela perde muito de sua liberdade, por não saber algo. Inconscientemente ela vai ficar irritada, porque se programou para fazer usar essa camisa, mas está frio. Me programei para sair a pé, mas está chovendo. Se a pessoa não sabe, a primeira reação é de se irritar, esbravejar, blasfemar contra São Pedro. Mas se ela sabe disso, ela já adquire uma liberdade. Ela pode pensar que amanhã é outro dia, pode chover, fazer frio ou calor. E aí, eu tendo essa consciência, eu sou mais livre, eu vou me preparar, eu tenho como planejar. Ela consegue fazer isso, porque o ser humano é um ser racional. Todo mundo sabe que chove, faz frio, etc, mas tem coisas que nós não sabemos e que realmente acontecem assim como a chuva e o sol.

O que é necessário fazer é conhecer essas coisas para que nós possamos nos prevenir, para que a realidade não nos choque, possamos agir e não fiquemos preso naquele sentimento de choque: “meu Deus, como isso foi acontecer?” É aquela história do escravo carregando os copos, deixa-os cair, quebra-os todos e o senhor do escravo, furioso, o mata. É Sêneca que está na janta, e ele não tem pena do escravo, mas do senhor. O senhor é tão ignorante, tão escravo da própria ignorância, que ele acha que copos não quebram.

A sabedoria aumenta nossa liberdade

Se a pessoa sabe das coisas, ela adquire um grau maior de liberdade. Ela pode pensar no clima amanhã e se preparar. Mesmo assim, há coisas que nós não sabemos e que acontecem aleatoriamente, assim como a chuva e o sol. Nestes casos, o que é necessário fazer? É necessário conhecer essas coisas para que possamos nos prevenir, para que encontremos a realidade, para que ela não nos choque e fiquemos sem reação, presos ao próprio sentimento de choque.

Aí é que reside a liberdade: no conhecimento da realidade. Não ficaremos chocados diante de qualquer coisa idiota que possa nos acontecer. Como a pessoa que se supreende diante da antipatia de alguém e fica escandalizada com o comportamento grosseiro. Bom, é preciso saber que às vezes as pessoas estão antipáticas, com mau humor e problemas, isso pode acontecer. A pessoa pode nos receber a pontapés e coices. É culpa da própria pessoa? Pode ser que a pessoa não seja livre por deixar essas coisas aflorarem, mas é culpa tua também, que não percebe que as coisas podem ser assim.

E quando não temos a noção das possibilidades reais das coisas, nós acabamos perdendo a nossa própria liberdade. Quando a gente tem liberdade? Quando, ao invés de simplesmente andar para frente e acabar pisando nas sementes, nós conseguimos desviar. No outro dia que passemos por ali, já vemos brotos da semente. No outro dia, já é uma pequena árvore. Daqui há um ano, ele virou um arbusto, daqui a 50 anos, é algo que pode alimentar muitas outras pessoas. Não só aquele pássaro que ia ali comer. E o pássaro fez uma coisa boa. Ele completou a sua existência. As pedras não tiveram culpa. Os espinhos também não. O homem é o único que pode ser culpado.

Essa semente, que é a realidade que deve ser estudada, explica o título da palestra: educação para quem quer. Para quem quer desviar do caminho para não pisotear as sementes, de maneira que haja uma árvore daqui a 10 anos que alimente muitas pessoas.

Uma araucária começa a dar fruto lá pelos seus 30 anos e atinge seu ápice aos 60. A pessoa que planta uma araucária geralmente não vê seus frutos. Mas para que ela possa fornecê-los, a pessoa precisou cuidar para que não fosse pisoteada.

O conhecimento é a transmissão de uma alma para outra

Embora os próprios livros possam parecer duráveis, ou até os meios digitais, materialmente tudo um dia acaba. Não é porque as coisas estão ali materialmente que o conhecimento e a realidade sobrevivem. A cultura é algo da alma e que é passado de uma alma para outra. É algo imaterial. E o desejo da pessoa de estudos, o desejo de uma verdadeira educação é que ela possa fazer com que essa cultura viva dentro dela para que as próximas gerações (e até ela mesma) se beneficiem disso tudo. Porque senão cada geração teria que começar do zero descobrindo o fogo, e a coisa não é assim.

É muito mais fácil quando eu tenho alguém que leu Aristóteles e pode ler junto comigo e me explicar, porque já fez isso há 40 anos atrás, do que eu precisar aprender o grego e passsar muito mais trabalho. Quantas vezes a gente não lê algo, não estuda algo, chega alguém e faz um comentário sobre isso e eu fico surpreso porque não tinha percebido aquele aspecto. A gente vê que existe uma necessidade da cultura de ser algo que passe de uma pessoa para outra, de uma geração pra outra.

As diferentes acepções da palavra liberdade

Pra irmos terminando. Quando falamos de educação liberal, começamos falando o Congresso falando de educação para quem quer realmente desviar do caminho das sementes e não pisoteá-las, nós sempre estamos falando de liberdade, a palavra liberal tem diferentes acepções e diferentes usos, ninguém aqui vai falar de Ludwig Von Mises, Adam Smith, nem nada relacionado com liberalismo econômico, nem no sentido americano, onde liberal é oposto a conservadorismo. Aqui liberal tem sentido de clássico. Educação liberal é um termo em sentido bastante estrito, é uma educação para a liberdade individual, para a liberdade das consciências, para a liberdade de todos aqueles que queiram e que está acessível a todos. Nós não precisamos parecer livres, precisamos ser livres.

Nós ficaríamos loucos se não soubéssemos que carros passam na rua e, ao sair na rua, nos deparássemos com vários carros. É assim com as crianças pequenas. Elas se impressionam com qualquer coisa, tudo choca. O que ela faz? Chora, pois não sabe o que fazer. Ele sente sono, não sabe o que fazer, então chora. Ela não espera sentir sono. O adulto sabe que precisa dormir.

E o quanto nós podemos ser realmente bebês, que estamos com sono e chorando, não fazendo nada? Quando se está com sono, se dorme. Quando a educação está ruim, estuda-se. “Mas e o governo, e os investimentos em educação, e as ideologias?” O indivíduo alega não ter tempo de ler um livro. Mas que fazer abaixo assinado, protestar, exigir mais investimento, porque a educação do Brasil é uma porcaria. Ele até pode fazer isso, mas só depois que souber o que é a verdadeira educação. Por acaso sabe ele o que colocar no lugar? “Ah, matemática!”. Mas tu sabe matemática? “Não, mas o professor sabe!” Pois aí que está o problema, o professor também não sabe.

Educação se resolve com investimento?

O que eu digo para os professores e digo pra todo mundo, quando o pessoal fala em investimento em educação, tentando resolver um problema de burrice própria e dos outros com dinheiro. Quase todo mundo argumenta que deve-se investir mais em educação, elevar o piso salarial para (extrapolemos) R$15000 para o professor. Eu pergunto: por quê? R$15000 vai aumentar meu conhecimento, pedagogia e didática? Não! R$700 reais também não, mas isso não deve ser pago a ninguém.

Mas simplesmente injetar dinheiro no negócio não funciona. Comprar uma biblioteca na escola, colocar 40000 livros não terá resultado. Não seria melhor dar 3 livros por aluno para que eles lessem isso no ano? Que o professor de literatura garantisse a leitura de pelo menos um livro, bem lido, em que o professor pudesse garantir que os alunos estão lendo, entendendo, aprendendo a ler, aprofundando as suas capacidades de leitura? Mas não. Queremos dinheiro. Para comprar um livro para cada um é barato, é fácil de resolver a questão. Mas não. Queremos montar biblioteca, comprar computadores. Precisamos ter um laboratório de informática, com uma escola de educação infantil, onde temos uma oficina de iPad, onde as crianças são inseridas no meio da informática, porque esses são os tempos modernos, a pessoa tem que conhecer informática (normalmente, se fazemos isso com a criança, quando ela chega aos 4 anos, ela sabe mais do que o professor que está ensinando iPad, é bastante provável).

Então ensinemos música. Contratemos uma professora que estudou violino desde os 7 anos. Mas ela admite: “eu sou meio desafinada”. O que ela pode fazer com um grupo de crianças, ensinar violino? Óbvio que não, então ela vai cantando, mostrando as notas e não consegue afinar. Ou seja, colocar dinheiro na mão da professora não vai resolver.

O estudo é doloroso

Falando então de soluções para educação, é muito fácil a gente culpar o governo, o “sistema” (eu nunca entendi muito bem o que é isso, embora todo mundo fale). Então todas essas coisas nós começarmos a engolir muitas outras coisas: enchermos a nossa prateleira de livros, matricularmos em muitos cursos, é tudo muito fácil. Porque só custa dinheiro e tempo. Mas estudar é muito mais que isso. Estudar é doloroso, muito doloroso. Porque eu leio e não entendo. Aí eu passo pra outro livro, porque o anterior estava difícil. Aí eu vejo que aquela tradução é ruim. Então decido que aquele autor é de máxima importância, então preciso aprender a língua dele.

Isso tudo dói. Aprender um idioma dói muito. Aprender afinar e cantar a escala de Dó Maior, cantar no coral, tudo isso dói, pois a pessoa vai lá e não consegue, então quer desistir. E mesmo que não desista, ela continua comendo as sementes. Diz que está ouvindo muita música em casa. Pode ser, ninguém disse que isso é errado. Mas o que aconteceu no coral, na tua aula de alemão? Por que tu parou? Porque não conseguiu, travou em algo e doeu. Existe o talento, a facilidade para certas áreas do conhecimento? Claro que existe. Mas as pessoas talentosas são precisamente aquelas que dizem que dói. Porque o talentoso é aquele que mais aprende no primeiro momento, e nesse momento não dói.

Para aprender mil palavras de uma língua é muito simples. Substantivos como mesa, cadeira,etc. Mas quando preciso aprender regência verbal, correto uso das preposições, do uso dos tempos verbais, isso começa a doer. Eu aprendo duas mil palavras, pego qualquer texto e consigo ler, leio 90% do texto. Depois tento ler 91% do texto. Esse 1% vai ser muito mais duro e vai me exigir muito mais tempo do que eu precisei para aprender os outros 90%. E dói. Eu estudo, faço exercícios, anoto, crio sistemas de memorização, e eu passo para o próximo texto e não tem aquela palavra que eu aprendi semana passada, enquanto aquelas 2000 sempre estão lá. Então vejo outro texto, também não tem, aí eu anoto, me esforço, mas não entendo o estilo do autor, e por aí afora. Sempre vai ser assim, a coisa vai ficando cada vez mais difícil. Todo mundo que já se dedicou a estudar alguma coisa em profundidade sabe que é assim.

Estudar demais em curto espaço de tempo não é proveitoso

Não existe arte, não existe técnica, não existe nada que não seja assim; o que eu preciso é de studium, de vontade e eu preciso olhar para a realidade e conseguir desviar: agora não, agora chega de YouTube, chega de distrações. Ou ainda, preciso parar de me enganar: às vezes assistimos 8hs de áudio, de aulas por dia, mas como isso está me ajudando? Há aqueles que assistem 200 aulas do COF num mês, botam de manhã, vão vendo o dia inteiro e em um mês conseguem. Fazer 15min é mais proveitoso do que isso, eu consigo localizar o conhecimento na minha própria memória. Mas isso dói. Mais fácil fazer tudo em um mês.

Quando fazemos isso, apenas repetimos a prática comum da faculdade, onde a gente estuda tudo no final do semestre. Até mesmo o próprio professor, que muitas vezes acelera o conteúdo porque está atrasado na matéria. Corta a leitura de alguns artigos pois não vai dar tempo. Como assim, não leio? Ele deve ser muito importante. Não, pessoal, aqui estamos estudando alemão, era para termos terminado o ano com vocabulário de 1500 palavras, mas vamos acabar com 750 palavras porque nos enrolamos demais no início e tal.

Conclusão

É importante nos depararmos mesmo com esses problemas e fazermos uma reflexão, um verdadeiro exame de consciência num sentido inaciano, jesuítico, chegando no fim do dia e pensarmos o que aprendemos e o quanto deixamos de ser livres. Se a pessoa for católica, ela reflete em quais foram seus pecados, onde a graça de Deus esteve presente, mas toda pessoa de estudo deve fazer um exame de consciência para se auto-educar: já passou uma semana e eu não li nada. O contrário também: li muita coisa e já não lembro de nada. Não teria sido melhor eu ter lido 5 minutos por dia do que uma hora num dia só e não lembrar de nada? Não seria melhor ler só um livro de uma matéria ao invés de 20? Então a pessoa, a partir daí, deste próprio exame, a pessoa vai conseguir construir seu próprio currículo. Esse currículo é o caminho onde ela está. Ela tem que ver que existem sementes no caminho, mas que eu vou passar por elas, não por cima delas, eu tenho que estar atento para que não acabe pisando e elas possam florescer e dar até 100 por 1 de frutos, como foi uma das sementes que caiu em solo fértil.

Link para o vídeo: https://youtu.be/isgTcBx-dTc

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